19/07/08

É noite

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou,fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
(...)

Carlos Drummond de Andrade

18/07/08

aves combatentes de bochechas vermelhas

Não lhes foi difícil encontrar a praça onde haveria as execuções: o povo convergia para lá de todas as direcções. Naquele século grosseiro, aquilo era um espectáculo dos mais divertidos, não só para a plebe mas também para as classes superiores. […]
No primeiro plano, ao lado dos soldados de bigodaça que constituíam a guarda municipal, estava um jovem szlachcic que vestira uma farda militar e tudo, mas tudo, o que tinha lá em casa para vestir, com excepção de uma camisa rota e de umas botas velhas. Pendiam-lhe do pescoço duas correntes com uma moedinha. Estava com a namorada e, volta e meia, olhava ao redor para que ninguém sujasse o vestido de seda da menina. Explicava-lhe tudo, mas tudo, exaustivamente. “Olhe, alminha – dizia ele –, aqui está o povo que veio ver a execução dos criminosos. E aquele homem que a menina vê ali e que tem nas mãos a acha e outros instrumentos é o carrasco que vai executar os criminosos. Antes, durante o suplício da roda, o criminoso ainda estará vivo, alminha, só morrerá de uma vez quando lhe cortarem a cabeça. Antes disso vai gritar e estrebuchar, mas quando o decapitarem já não poderá gritar, comer ou beber, porque, alminha, já não terá cabeça.” E a menina ouvia tudo com medo e curiosidade.

Nikolai Gógol,Tarás Bulba, in Mírgorod (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra), Assírio & Alvim

17/07/08

papoulas breves

Vincent Van Gogh, Butterflies and Poppies, San Remy, 1890

sabes, as aves aquáticas já não pernoitam junto ao mar
nem por entre os nossos dedos de areia
sobem-nos vozes calcárias à garganta, estrangulo-me neste
humilde canto, fico atento ao eterno silêncio do teu castelo

às vezes escuto o teu cantar, raramente, é certo… mas quan-
do cantas saem-te nomes puros da boca e sorrisos diáfanos
de cristais
os lábios incendeiam-se com vinho, teu corpo adquire o sa-
bor misterioso das algas
no crepúsculo expande-se o pefume a moreia frita, teu
olhar é o mosto dos nossos desejos

dançamos à roda de um mastro, saia em papel de seda borda-
da com búzios… uma quadra flutua pela noite de nossos cabelos
rodopias, e os teus amores são relembrados pela noite adiante
espalham-se estrelas cadentes, papoulas breves, junco mo-
lhado
e o mar enche-se novamente de pássaros, embarcações se-
melhantes a beijos que nos percorrem de alegria

Al Berto, Degredo no Sul, Assírio & Alvim

27/06/08

Litania

[...] Spurius*, triste, de olhar fixo, com as mãos a tremer, gagueja:
– Houve um tempo em que eu não existia e houve um tempo em que tu não existias. Haverá talvez um tempo em que eu deixe de existir e tu existas, ou talvez um tempo em que tu não existas e eu exista. Serão sem dúvida os tempos mais tristes. Depois haverá um tempo em que ambos já não existiremos e nunca mais voltaremos a existir.
Enquanto ele falava, Spatalé repunha azeite nas candeias. Eu** acariciava-lhe com o dedo as costas da mão, que tremia.

Pascal Quignard, As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia (trad. Ernesto Sampaio), Livros Cotovia.

* Spurius Possidius Barca, o segundo marido de Apronenia Avitia, encontrava-se acamado devido, possivelmente, a uma intoxicação alimentar.
** Eu (Apronenia Avitia). Apronenia Avitia, uma patrícia romana do final do século IV, escreveu uma espécie de diário (ou de agenda) sobre umas tabuinhas de buxo. Aí anotou contas, encomendas, perfumes, peças raras, preferências e aversões quanto a cheiros, comidas e prazeres, sonhos, pesadelos, reflexões, ditos jocosos ou não, recordações, etc.

22/06/08

As Realidades (Fábula)

Era uma vez uma realidade
com as suas ovelhas de lã real
a filha do rei passou por ali
E as ovelhas baliam que linda que está
a re a re a realidade.

Na noite era uma vez
uma realidade que sofria de insónia
Então chegava a madrinha fada
e realmente levava-a pela mão
a re a re a realidade.

No trono havia uma vez,
um velho rei que se aborrecia
e pela noite perdia o seu manto
e por rainha puseram-lhe ao lado
a re a re a realidade.

CAUDA: dade dade a reali
dade dade a realidade
A real a real
idade idade dá a reali
ali
a re a realidade
era uma vez a REALIDADE.


Louis Aragon


Franco Fortini, “o movimento surrealista”, trad. António Ramos Rosa, presença

02/06/08

vento e contravento, contravento e vento

"Mas a cena das duas pessoas a entrar no táxi e a satisfação que me deu fizera-me também perguntar se há dois sexos no espírito que correspondam aos dois sexos no corpo e se eles também necessitam de estar unidos para alcançarem uma plena satisfação e felicidade. E comecei, diletantemente, a esboçar a teoria de que em cada um de nós actuam duas forças, uma masculina e uma feminina; e no espírito do homem predomine o homem sobre a mulher, e no da mulher predomine a mulher sobre o homem. O estado normal e confortável da existência é aquele em que os dois vivem juntos em harmonia, cooperando espiritualmente. Se um é homem, a sua parte feminina interior deve ter um significado; e uma mulher deve também ter uma relação com o homem que existe nela. Coleridge talvez se referisse a isto quando disse que um grande espírito é andrógino. É no momento em que toda esta fusão ocorre que o espírito é totalmente fecundado e utiliza todas as suas faculdades. Talvez um espírito que seja puramente masculino não possa criar mais do que cria um espírito puramente feminino, pensei."
Virginia Woolf, "um quarto só para si", trad. Maria de Lourdes Guimarães, relógio d'água

motivo

"- ...por que é que tu dormiste com Pola?
- Por uma questão de perfumes - disse Oliveira, sentando-se no parapeito à beira da água. - Pareceu-me que cheirava ao cantar dos cantares, a canela, a mirra, essas coisas. E além disso era verdade."

Julio Cortázar, "Rauyela", trad. Alberto Simões, cavalo de ferro

28/05/08

Não compreendem nada

Entrei no barbeiro e disse - calmamente:
«Tenha a amabilidade, penteie-me as orelhas.»
Num repente o barbeiro pelado virou conífera eriçada,
a sua cara alongou-se como uma pêra.
«Ele é tolo!
Anormal!» -
e as palavras foram-se aos saltos.
O insulto ressaltava de ganido em ganido,
e lon-on-ongamente
uma espécie de cabeça fez troça,
extraída da multidão, como um velho rabanete.

Vladimir Maiakovski, "33 poesias", trad. Adolfo Luxúria Canibal, quasi

25/05/08

Da floresta...

"O meu nome é Marie e venho do Emental [...]. Trabalhei muito, porque sou forte. Tudo o que via e ouvia depressa me pareceu frio, estranho e pequeno. Nunca compreendi aquilo a que os outros chamam vida. As pequenas lágrimas e as pequenas risadas dos outros pareciam-me cada vez mais e mais estranhas, mais e mais incompreensíveis. Nao participava nas suas alegrias precipitadas, não percebia os seus sofrimentos. Sempre fui calma e contida. Nunca me senti assustada ou inquieta. Nunca tive medo de nada. As pessoas começaram a evitar-me como se eu fosse um fantasma; mas eu nunca perdi a calma, e nunca a perderei. Aqui na floresta sinto-me bem. Não gosto de pessoas. [...] Nunca quis ferir ninguém com a minha maneira de ser. Nasci assim, mas as pessoas julgam sempre que somos o que somos por intenção nossa. Mas isso não me inquieta muito, e hoje, que estás comigo, não me inquieta mesmo nada. És bom [...] e confias em mim. És tranquilo e não tens medo de mim."

Robert Walser, Histórias de amor, Relógio d' Água (Trad. Isabel Castro Silva)

10/05/08

Fatalidade

Francisco de Goya y Lucientes, Perro semihundido

Esta pintura decorava uma das paredes da casa de Goya (conhecida como "La quinta del sordo"). A cabeça de um cão surge no meio de uma mancha escura e olha para algo ou alguém que está fora da composição. É considerada uma das mais enigmáticas das "Pinturas Negras".


Por que escrevo?

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só queria ter o que eu tivesse sido e não fui.
Clarice Lispector, A Hora da Estrela, Relógio D'Água

03/05/08

27/04/08

imagine otherwise

(fotograma de "branca de neve" de João César Monteiro)



25/04/08

the great Picasso

(na foto: Françoise Gilot e Pablo Picasso)
-
-
"then wear the golden hat, if that will move her;
if you can bounce high, bounce for her too,
till she cry "lover, gold-hatted, high-bouncing lover,
i must have you!"
-
Thomas Parke D'Invilliers

vara verde com olhos

"Não sou um homem moral (embora tente manter a minha consciência em equilíbrio) nem um sábio; não sou nem um esteta nem um filósofo. Sou apenas um homem nervoso, por força das circunstâncias e dos meus próprios actos; mas sou observador. Como disse o meu querido Akuyagawa Ruymosuke, eu não tenho princípios; só tenho nervos."

Joseph Brodsky, "marca d'água", trad. Ana Luísa Faria, d. quixote

19/04/08

nouvelle vague - dance with me

Da imperfeição

“Era dia de orquestra. A orquestra vinha duas vezes por semana de uma praia vizinha. Os músicos eram magros e novos e tinham smokings velhos, ligeiramente esverdeados pelo uso e pela humidade das invernias marítimas. Eram músicos falhados: sem grande arte, com pouco dinheiro e sem fama. Deviam ser resignados ou revoltados. Espero que fossem revoltados: é menos triste. Um homem revoltado, mesmo ingloriamente, nunca está completamente vencido. Mas a resignação passiva, a resignação por ensurdecimento progressivo do ser, é o falhar completo e sem remédio. Mas os revoltados, mesmo aqueles a quem tudo - a luz do candeeiro e a luz da Primavera - dói como uma faca, aqueles que se cortam no ar e nos seus próprios gestos, são a honra da condição humana. Eles são aqueles que não aceitaram a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombras e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir.”

Sophia de Mello Breyner Andresen, PRAIA, in Contos Exemplares, figueirinhas, 2006

12/04/08

Duas formas de dizer

"Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalo de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim – exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor...
Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más - boas ou más, que a gente nunca sabe com qual é que vai para o Diabo.
Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.
Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. [...] Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte [...].
Porque só há duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.
Tudo o mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes. "

Álvaro de Campos, Aviso por causa da moral *
in Fernando Pessoa, Aviso por causa da moral e outros textos de intervenção de Álvaro de Campos, Editorial Nova Ática
* Manifesto distribuído por ocasião de uma exigência feita por estudantes universitários de Lisboa no sentido de serem apreendidas as Canções de António Botto.

09/04/08

"a ternura súbita"


"David olha para Karin e diz: não pude, não soube manifestar a ternura, tudo isso que é feito de tacto e intimidade, a única coisa que conta, a única coisa que alivia da angústia e do ódio. A única coisa que suaviza o facto de estarmos neste mundo."

Ingmar Bergman, "Dependência", trad. Armando Silva Carvalho, assírio & alvim

bula livresca

"O traço definitivo de todo o poeta é sempre o espírito com que observa a Natureza e a Humanidade, o temperamento a partir do qual contempla a sua matéria. Com que têmpera e com que fé se comunicam estas coisas? A que época se molda o canto? Quais são as ferramentas do poeta, o seu engenho peculiar, os seus matizes? Em tais perguntas está sem dúvida contido o valor último daqueles que se expressaram artisticamente, tanto no passado – os estetas gregos, Shakespeare – como nos nossos dias Tennyson, Victor Hugo, Carlyle, Emerson. Digo que o melhor serviço que um poema ou um escritor qualquer pode prestar ao leitor não é satisfazer o seu intelecto, nem oferecer-lhe algo interessante e refinado, nem pintar para ele grandes paixões, indivíduos ou acontecimentos, mas inculcar-lhe vigorosa e limpa humanidade, religiosidade, dar-lhe, como possessão e hábito central, um bom coração. O mundo culto parece ter incrementado o seu tédio e fastio ao longo das épocas, trazendo essa herança para a descarregar sobre nós, Por sorte, há ainda na raça um fundo inesgotável de alegria, ao qual se pode recorrer sempre e no qual sempre se pode confiar."


Walt Whitman, "Folhas de Erva", trad. José Agostinho Baptista, assírio & alvim