02/04/09

abre as asas e fala...



Fala deixa cair uma palavra
Bons-dias dormi todo o Inverno e agora desperto
Fala
Uma piroga desliza em direcção à luz
Uma palavra veloz avança a toda a vela
O dia tem forma de rio
Em suas represas brilham as plumas de teus cantos
Doçura da água na erva adormecida
Água clara vogais para beber
Vogais para adornar uma fronte uns tornozelos
Fala
Atinge o cume dum momento de júbilo
E logo abre as asas e fala sem cessar
Passa um rosto esquecido
Passas tu própria com teu andar de vento num campo de milho
A infância com suas flechas e seu ídolo e sua figueira
Desata as amarras e passa com a torre e o jardim
Passa o futuro e o passado
Horas já vividas e horas por viver
Passam relâmpagos que levam no bico pedaços de tempo ainda vivos
E escrevem teu nome nas costas nuas do espelho!
Fala
Molha os lábios na água que da pedra inesgotavelmente brota
Submerge teus brancos braços na água grávida de profecias iminentes


Octavio Paz, Antologia Poética, in Manancial (org. e trad. Luís Pignatelli), Publicações Dom Quixote

08/03/09

partir est mourir un peu

"Conforme estamos juntos ou afastados, assim te conheço de duas maneiras diferentes. Tu és duas pessoas.
Quando estás longe, continuas presente em mim. É uma presença que reveste as formas mais diversas: imagens incontáveis, passagens de livros, significações, coisas familiares, marcas na terra; mas o conjunto de tudo isso fica difuso pela realidade da tua ausência. É como se o teu ser se transformasse em lugar, os contornos do teu corpo em horizontes. Vivi portanto em ti como se vivesse num país. Tu existes em todo o lado. Nesse país, contudo, nunca te poderei encontrar face a face.
Partir est mourir un peu. Era muito novo quando ouvi esta frase pela primeira vez e logo percebi que ela exprimia uma verdade que eu já sentia. Recordo-a agora, porque a experiência de viver em ti como num país onde é impossível encontrarmo-nos face a face parece-se com a experiência de viver com a recordação dos mortos. O que eu não sabia quando era novo é que nada elimina o passado: o passado vai crescendo gradualmente à nossa volta como placenta da morte.
No país que tu és conheço os teus gestos, as entoações da tua voz, a forma de todas as partes do teu corpo. Fisicamente: não és menos real mas és sem dúvida menos livre.
O que muda quando estás presente em carne e osso, é o facto de te tornares imprevisível. Cada gesto que faças é-me desconhecido. Sigo-te. Tu ages. E no que fazes, vejo-me de novo enamorado."

John Berger, "e os nossos rostos, meu amor, fugazes como fotografias", quasi

24/02/09

El hombre imaginario

El hombre imaginario
vive en una mansión imaginaria
rodeada de árboles imaginarios
a la orilla de un río imaginario.

De los muros que son imaginarios
penden antiguos cuadros imaginarios
irreparables grietas imaginarias
que representan hechos imaginarios
ocurridos en mundos imaginarios
en lugares y tiempos imaginarios.

Todas las tardes imaginarias
sube las escaleras imaginarias
y se asoma al balcón imaginario
a mirar el paisaje imaginario
que consiste en un valle imaginario
circundado de cerros imaginarios.

Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario.

Y en las noches de luna imaginaria
sueña con la mujer imaginaria
que le brindó su amor imaginario
vuelve a sentir ese mismo dolor
ese mismo placer imaginario
y vuelve a palpitar
el corazón del hombre imaginario.

Nicanor Parra

22/02/09

Não sei nada

“Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soletrar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora “pássaro” seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei.”

Ruy Belo, "todos os poemas - vol. I", Assírio & Alvim

20/02/09

Arcos de luar

Xilofone
“Jogo infantil. Água de madeira. Princesas a fiar no jardim, raios de luar.”
Uma traição inqualificável
“O meu único inimigo, provocador e brigão, era o vento. Quase todas as noites, antes de entrar no meu quarto, deixava-o silvar alegremente abraçado a um poste da rua, ou entretido com os papéis que pastavam pela calçada. Mas, mal eu me despia, e a cadeira complacente sacudia o pó e abria os braços para me receber, o vento começava a bater violentamente contra a janela, tentando insinuar-se por alguma fenda, ou abri-la à força; a minha janela, porém, cruzava bem os seus dois rudes e únicos dedos, e mofava do vento.”
A agradável consigna de Santa Huesca
“[…] É um vulgar tiquetaque que ora saltita, ora pergunta, ora se concentra esgrimindo um livro, ora derruba um carro eléctrico que segue à cabeça da multidão. Este tiquetaque não tem a ver com as mortes nem com a história. Feitas as contas, vai ao que os outros vão.”
J.F. Aranda, Os poemas de Luis Buñuel (trad. Mário Cesariny), Assírio & Alvim

01/02/09

Quando a criança era criança

"As Asas do Desejo", Wim Wenders

Quando a criança era criança
andava com os braços a baloiçar.
Queria que o ribeiro fosse um rio,
que o rio fosse uma corrente,
e que esta poça fosse o mar.

Quando a criança era criança,
não sabia que era criança.
tudo era cheio de vida
e toda a vida era uma.

Quando a criança era criança,
não tinha opinião de nada.
Não tinha hábitos, ficava muitas vezes
sentada de pernas cruzadas,
fugia, tinha um remoinho no cabelo
e não fazia uma cara sorridente
quando tirava fotografias.

Excerto do poema do Peter Handke, dito no início do filme "As Asas do Desejo" ("Der Himmel Über Berlin", 1987), Wim Wenders.

23/01/09

O lirismo do alfabeto

Sinto-me arrebatado pelas letras,
atacam-me, cegas, de noite,
invadem-me:
cercam-me durante o dia,
tomando-me de assalto os olhos,
arrancando-me o sono e projectando-o
da sombra para a luz,
da luz para a sombra, inexoravelmente.
Guerra sem fim e sem quartel,
mortal e alegre a cada instante.
Rimbaud deu cores às vogais,
mas cada letra - todo o alfabeto -
se expande numa cor, torna visível,
até quase pode tocar-se, o seu som.
Eis aqui a armada invicta,
as guardas avançadas da palavra,
torres maiúsculas,
fortes capitães, que em batalha contínua, entrelaçados,
provocam desde há séculos todas as comoções,
ligeiras ou profundas,
do ser, do pensamento.
Pintura, poesia, caligrafia e música
- folhas, estrelas, flores - ei-las aqui, num só ramo.
O alfabeto é tudo.
Na caligrafia, exaltada, ressoa cada coisa.
Dum extremo ao outro,
percorre o mundo o lirismo do alfabeto. Escutai.
Todas as letras cantam nas antenas.

Rafael Alberti (Trad. Albano Martins)

19/01/09

Ernesto Sabato, Daniel Mordzinski (foto retirada daqui)

náufragos exaustos

Quando somos sensíveis, quando os nossos poros não estão cobertos pelas capas implacáveis, a proximidade da presença humana sacode-nos, dá-nos alento, compreendemos que é sempre o outro que nos salva. […] Muitas vezes, somos incapazes de um genuíno encontro porque só reconhecemos os outros na medida em que definem o nosso ser e o nosso modo de sentir, ou porque são propícios aos nossos projectos. Não podemos ficar num encontro porque estamos cheios de trabalho, de coisas para tratar, de ambições. E porque a magnitude da cidade nos supera. Então, o outro ser humano não nos chega, não o vemos. Está mais ao nosso alcance um desconhecido com quem falamos através do computador. Na rua, no trabalho, nos infinitos expedientes, sabemos – abstractamente – que estamos a lidar com seres humanos, mas, concretamente, tratamos os outros como se fossem servidores informáticos ou funcionais. Não vivemos esta relação de um modo afectivo, é como se tivéssemos uma capa de protecção contra os acontecimentos “desviantes” da atenção. Os outros incomodam-nos, fazem-nos perder tempo. O que deixa o homem espantosamente só, como se no meio de tantas pessoas, ou por isso mesmo, o autismo se propagasse.
Ernesto Sabato, Resistir (trad. Carlos Aboim de Brito), Dom Quixote

01/01/09

Vais à água?

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A tua casa, sendo o local onde lês, pode dizer-nos que lugar ocupam os livros na tua vida, se são uma defesa que pões à frente para manteres afastado o mundo exterior, um sonho em que mergulhas como numa droga, ou se são pontes que lanças para o exterior, para o mundo que te interessaa tanto que queres dilatar e multiplicar as suas dimensões através dos livros.
##
Trazes o livro que estavas a ler no café e que estás impaciente por continuar, para depois poderes passar-lho, para comunicares de novo com ela através do canal aberto pelas palavras alheias, que justamente por serem pronunciadas por uma voz estranha, pela voz do silencioso ninguém feito de tinta e de espaçamentos tipográficos, podem tornar-se vossas, uma linguagem, um código entre vós, um meio de trocarem sinais e reconhecerem-se.
Italo Calvino, Se numa Noite de Inverno um Viajante (trad. José Colaço Barreiros), teorema

21/12/08

o toque da luz

"Mas da lua ela não tinha receio porque era mais lunar que solar e via de olhos bem abertos nas madrugadas tão escuras a lua sinistra no céu. Então ela se banhava toda nos raios lunares, assim como havia os que tomavam banhos de sol. E ficava profundamente límpida."

Clarice Lispector, "uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", relógio d'água

01/12/08

E tu poderias?

De repente salpiquei para fora do copo de tinta
um mapa do quotidiano.
Mostrei num prato de geleia
as oblíquas maçãs do rosto do oceano.
Nas escamas de um peixe de ferro branco
li o apelo de lábios novos.
E tu,
poderias tu
tocar um nocturno
com a flauta das goteiras?

Vladimir Maiakovski, 33 Poesias (Trad. Adolfo Luxúria Canibal), edições quasi

25/11/08

respirar e ver

‒ Fui sempre um desgraçado ‒ disse. ‒ Mas mais que desgraçado, um miúdo. Certas noites custa-me ir dormir, porque me parece tempo perdido. Queria estar sempre desperto, disposto a respirar e a ver. Ver, ver sempre: bastar-me-ia. Para mim é um prazer enlouquecer, sair de casa e olhar o tempo, a gente que passa, sentir-lhe o perfume. Depois é bom pensar nisso. Há humilhações, mas paciência.

Cesare Pavese, vocação, in férias de agosto (Trad. Ana Hatherly), quasi

23/11/08

Transparências

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A cama era um pesadelo. A “casa de banho” tinha um bidé (suficientemente grande para que nele se instalasse um elefante de circo, sentado), mas não tinha banheira.

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Posso decorar uma página inteira da lista telefónica em três minutos exactos, mas sou incapaz de me lembrar do meu próprio número de telefone. Posso compor páginas de poesia tão estranha e nova como tu, ou como qualquer coisa que alguém possa escrever daqui a trezentos anos, mas nunca publiquei um verso sequer […] Posso levitar uma polegada e manter-me assim por dez segundos, mas não consigo trepar a uma macieira. Possuo uma licenciatura em Filosofia, mas não aprendi alemão. Apaixonei-me por ti, mas não farei nada quanto a isso. Em resumo, sou um génio absoluto.

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Se, como acontecia às vezes, nas horas mais cinzentas, sem a mais remota intenção sexual, ele interrompia a sua leitura, para ir até ao quarto dela avançando sobre os joelhos e os cotovelos, como uma preguiça extática, indescritível, inarbórea, uivando a sua adoração, a fria Armande dir-lhe-ia que se levantasse e deixasse de se armar em parvo. Os nomes mais ardentes que conseguia imaginar – minha princesa, minha querida, meu anjo, meu bichinho, minha fera felina – só a exasperavam. “Mas por que razão”- perguntava ela, “não consegues falar comigo de uma forma humana, natural, como um cavalheiro fala com uma senhora, por que tens de inventar estas palhaçadas, por que não consegues ser sério e simples e credível?”

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Viu um 313 muito preto sobre uma porta muito branca e lembrou-se instantaneamente de como tinha dito a Armande (que lhe prometera visitá-lo e não quis que a anunciassem): "Mnemonicamente deve ser imaginado como três homenzinhos de perfil, um preso que passa com um guarda que vai à frente e outro guarda atrás." Armande replicara que isso era muito complicado para ela e que o anotaria simplesemente na agendinha que trazia na carteira.

Vladimir Nabokov, Transparências (Trad. Margarida Santiago), Teorema

22/11/08

porcos-espinhos prateados

As únicas palavras que a abriam eram as palavras abafadas dos poetas, tão raramente proferidas pelos seres humanos. Somente elas a penetravam sem despertar os guardas eriçados, de vigia aos portões, trajados como porcos-espinhos prateados, armados de desconfiança, barrando o caminho que levava aos recessos secretos dos seus pensamentos e emoções.
Diante da maior parte das pessoas, da maior parte dos lugares, da maior parte das situações, da maior parte das palavras, o ser de Djuna, de dezasseis anos, fechava-se hermeticamente no silêncio. As sentinelas eriçavam-se: vem aí alguém! E todas as passagens que conduziam ao seu interior se fechavam.
Hoje, enquanto mulher adulta, conseguia perceber que essas sentinelas não se tinham limitado a defendê-la – tinham construído verdadeiros fortes sob essa máscara de branda timidez, fortes com buracos camuflados que escondiam armas construídas pelo medo.

Anaïs Nin, os Filhos do Albatroz (Trad. Tânia Ganho), Bico de Pena

12/11/08

a lua era feita de açúcar

quando era criança julgava que a lua era feita de açúcar. sentava-me no poial, olhava a roupa estendida a secar mover-se na brisa e os hibiscos vermelhos tremendo no fogo da lua cheia. ficava muito quieto, esperava que a noite se tornasse mais densa, misteriosa, e deixasse cair fios prateados sobre o jardim. acreditava que, um dia, a lua derreteria e todo o jardim se transformaria numa imensa doçaria. então, erguia os olhos para o negrume salpicado de astros, sentia-me ficar adulto. sentia-me crescer por dentro e por fora. no dia seguinte deixei de jogar ao berlinde.

Al Berto, O Medo, Assírio & Alvim

10/11/08

Lá e Não-aqui e Às-vezes

TANTAS CONSTELAÇÕES que
nos são oferecidas. Quando
para ti olhei ‒ foi quando? ‒ estava
lá fora nesses
outros mundos.

Oh, estes caminhos, galácticos,
Oh, esta hora que nos
trouxe as noites lançando-as
na carga dos nossos nomes. Não
é verdade, bem o sei,
que tenhamos vivido, passou,
cego, apenas um sopro entre
Lá e Não-aqui e Às-vezes,
como um cometa, um olho passava vibrante
em busca de fogos extintos, nos desfiladeiros,
no lugar do lume a apagar-se estava
o tempo num esplendor de tetas,
e por ele acima e abaixo já
crescia e passava o que
é ou foi ou há-de ser ‒,

eu sei,
eu sei e tu sabes, nós sabíamos,
não sabíamos, nós
afinal estávamos aqui e não lá
e às vezes, quando
entre nós só havia o Nada, o nosso
encontro era perfeito.

Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde (Trad. João Barrento e Y.K. Centeno), Livros Cotovia