16/09/08

na medida em que tudo pode ser simbólico

"O Acanto (do grego " akantha "), não é apenas uma planta espinhosa de folhas muito longas, verdes e recortadas, também conhecida como "erva-gigante", oriunda dos terrenos húmidos e pedregosos do Sul da Europa, o acanto é algo poético que lembra a pureza de carácter, perfeição moral e trabalho honesto.
(...)
O simbolismo da folha do acanto, muito usada nas decorações antigas e medievais deriva, essencialmente, dos espinhos dessa planta.
Conta certa lenda, narrada por Vitrúvio, que o escultor Calímaco, no final do século V a. c., ao ornamentar um dos capitéis do túmulo de uma menina , se teria inspirado num ramalhete de folhas de acanto. Retém-se dessa lenda o facto de que, pelo menos originalmente e sobretudo na arquitectura funerária, o acanto era usado para indicar que as provações da vida e da morte, simbolizadas pelos espinhos da planta, haviam sido vencidas.
O acanto ornamentava os capitéis coríntios, os carros fúnebres e as vestimentas dos grandes homens, porque os arquitectos, os defuntos e os heróis haviam sido homens que souberam vencer as dificuldades de suas tarefas. Como de tudo que possui espinhos, fez-se igualmente do acanto o símbolo da terra virgem e da própria virgindade, que também significam uma outra espécie de triunfo. Aquele que tiver ornado por essa folha venceu a maldição bíblica: “O solo produzirá para ti espinhos e cardos” (Génesis, 3, 18). No sentido de que a provação vencida se transformou em glória."

Jean Chevalier, «Dicionário de Símbolos», editora José Olympio

respigado daqui

14/09/08

Um pouquinho sublime...

Neste ponto acaba o conto. Sobre o crepúsculo desenha-se o rosto do milionário e do vagabundo, e depois as estrelas, e depois o infinito. Um pouquinho sinistro, não é? Um pouquinho sublime e um pouquinho sinistro. Como em todo o amor louco, não é? Se ao infinito se acrescentar infinito, o resultado é infinito. Se se juntar o sublime com o sinistro, o resultado é sinistro, não é?

Roberto Bolaño, Os Detectives Selvagens (trad. Miranda das Neves), Teorema

11/09/08

Au-dessus-de-la-montagne...


Algures sobre a montanha

10/09/08

Nocturno de.

Martin Lewis, Spring Night, Greenwich Village (British Museum - exposição temporária)

07/09/08

Flor, perfume, relva, céu...

Devo dizer, para ser franca, que já várias vezes tinha acedido a sair com ele. Não para ir ao baile. Ele dizia que não gostava de dançar. Na realidade, não sabia. Mas não me impedia que o fizesse. Eu também não gostava por aí além de dançar. […] Preferia ir até ao campo com ele. Ora me levava a Saint-Germain, ora a Fontainebleau, ora à beira do Sena ou do Marne. Alugávamos um barco. Ele remava. Eu ficava sentada à sua frente sem dizer nada. Ele também não dizia palavra. Olhava para mim enquanto remava e de vez em quando sorria-me. Eu então também sorria para ele. À volta, tomávamos um “panaché”, com umas batatas fritas, numa tasquinha lá do sítio e voltávamos de comboio, ou numa camioneta à pinha, com os braços atafulhados de flores do campo. Flores que cheiravam bem. De regresso a Paris, quase me sentia asfixiar. Gostaria de ter lá ficado, em Athis-Mons ou em Gagny, uma semana inteira deitada na relva ao pé dele, a olhar para o céu.

Raymond Guérin, Jaquina (Trad. Luiza Neto Jorge), in A Pele Calejada, Assírio & Alvim

nada passa

"Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que, ano após ano, recua diante dos nossos olhos. Nessa altura iludiu-o, mas não importa - amanhã correremos mais depressa, esticaremos mais os braços...E uma bela manhã...
Assim vamos persistindo, como barcos contra a corrente, incessantemente levados de volta ao passado."


Scott Fitzgerald, "o grande Gatsby", trad. Fernanda César, Europa-América

Recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


Al Berto, "vigílias", Assírio & Alvim

31/08/08

kibbutz... ki-bbu-tz

Estava menos frio junto ao Sena do que nas ruas. Oliveira subiu a gola da canadiana e foi contemplar o rio. Como não era dos que se atiram, procurou uma ponte para se abrigar debaixo dela e pensar no kibbutz por um bocado. Já há algum tempo que a ideia do kibbutz o assaltava, um kibbutz do desejo. “É engraçado como uma frase aparece assim de repente e não tem qualquer sentido, um kibbutz do desejo. Porém, depois da terceira vez que se repete começa a clarificar-se lentamente, e de um momento para o outro sente-se que não se trata de uma frase absurda […] é um resumo até bastante hermético de andar às voltas por aí, de deambulação em deambulação. […]”

Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), trad. Alberto Simões, cavalo de ferro

28/08/08

Não importa com quem

Não importa com quem.
Não importa porquê.
Não importa para quê.
Importa que sejas de novo o fruto sadio desta longa demora
com lábios nascentes nos olhos de outrora.
Importa que a nudez volte pura outra vez.
Não importa porquê!

Amélia Vieira, Fim, cavalo de ferro

Encontro

Algures sobre o rosto da terra (outra carta-postal)

Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio vi-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
[...]
António Ramos Rosa, Nuvens, in Antologia Poética, Publicações Dom Quixote

27/08/08

Dignidade profissional

Eu sou um carácter forte!
Sei dominar-me.
Não o deixava transparecer, mas estavam em jogo o trabalho de longos anos, o reconhecimento do meu talento, todo o meu futuro.
‒ Sou um artista imitador ‒ disse.
‒ O que é que sabe? ‒ perguntou o director.
‒ Imito o canto dos pássaros.
‒ Infelizmente ‒ fez um gesto de renúncia com a mão ‒, isso já passou de moda.
‒ Como? O arrulhar da rola? O chilrear do milheiro nos caniçais? O gorjeio da codorniz? O grito da gaivota? O cantarolar da cotovia?
‒ Passou ‒ disse o director aborrecido.
Aquilo magoou-me. Mas penso que não o mostrei.
‒ Adeus ‒ disse eu com cortesia, e saí a voar pela janela aberta.

István Örkény, Histórias de 1 minuto, vol. 1 (trad. Piroska Felkai), cavalo de ferro

21/08/08

fantasia e realidade

Edward Hopper, Night on the El Train, 1918 (British Museum - exposição temporária)

azul-sonho

Pablo Picasso, Child with a Dove, 1901 (The National Gallery)

01/08/08

Peixes prisioneiros

“Eu achava que a lama me fora dada para gozar as belezas do mundo, a luz do luar na alaranjada crista de uma nuvem e a gota de orvalho que estremece em cima de uma rosa. Mas enquanto fui criança, pensei sempre que a vida me reservava um acontecimento sublime e belo. Mas à medida que analisava a vida dos outros homens, descobri que viviam aborrecidos, como se vivessem num país onde chove sempre, onde os raios da chuva lhes deixaram no fundo das pupilas tabiques de água que lhes deformavam a visão das coisas. E compreendi que as almas se moviam na terra como os peixes prisioneiros num aquário. Do outro lado das esverdeadas paredes de vidro estava a bela vida musical e altíssima e onde tudo seria distinto, forte e múltiplo e onde os novos seres de uma criação mais perfeita, com os seus belos corpos, saltariam numa atmosfera elástica. Nessa altura dizia-me: “É inútil, tenho de fugir da terra”.

Roberto Arlt, Os sete loucos, (Trad. Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues), cavalo de ferro

29/07/08

frases que trazem quadros ao de cima

( quadro de Eduardo Murcho, gritinho)


"Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito."

Clarice Lispector, "a paixão segundo G.H.", relógio d'água

meter a mão ao bolso do

"O Tempo, doutor, é a própria serenidade combatendo a natureza. Uma vez, disse o príncipe, dispus-me aqui no Hochgobernitz a atrasar todos os dias os relógios uma hora, até que a certa altura estávamos atrasados três dias. Poderia perfeitamente ter atrasado os relógios do Hochgobernitz vários dias, semanas, até anos. Diverti-me mesmo! Quem viver todos os dias nem que seja uns instantes a mais, quando chegar ao fim tem mais uma vida vivida, disse o príncipe."


Thomas Bernhard, "perturbação", relógio d'água

correr lado a lado ao lado do tempo. ultrapassá-lo e ganhar, perdendo.

"A G.H. vivera muito, quero dizer, vivera muitos factos. Quem sabe eu tive de algum modo pressa de viver logo tudo o que tivesse a viver para que me sobrasse tempo de...de viver sem factos? de viver. Cumpri cedo os deveres de meus sentidos, tive cedo e rapidamente dores e alegrias - para ficar depressa livre do meu destino humano menor? e ficar livre para buscar a minha tragédia."

Clarice Lispector, "a paixão segundo G.H.", relógio d'água

27/07/08

Tu não te lembras?

‒ Isso aconteceu em Setembro. Não em Setembro deste ano mas sim do ano passado. Ou foi no ano anterior, Melitón?
‒ Não, foi no ano passado.
‒ Sim, eu bem me lembrava. Foi em Setembro do ano passado, pelo dia vinte e um. Ouve-me, Melitón, não foi a vinte e um de Setembro o dia do tremor de terra?
‒ Foi um pouco antes. Quer-me parecer que foi a dezoito.
‒ Tens razão. Eu por esses dias andava em Tuxcacuesco. Até vi quando se desmoronavam as casas como se fossem feitas de mel, simplesmente, retorciam-se assim, fazendo trejeitos, e vinham as paredes inteiras para o chão. E as pessoas saíam dos escombros todas aterrorizadas, correndo direitinhas para a igreja aos gritos. Mas esperem. Ouve, Melitón, parece-me que em Tuxcacuesco não existe nenhuma igreja. Tu não te lembras?
‒ Não há. Ali não restam senão umas paredes feitas em quatro bocados que dizem que foi a igreja há coisa de duzentos anos; mas ninguém se lembra dela, nem de como era; aquilo mais parece um curral abandonado infestado de figueirinhas.
‒ Dizes bem. Então não foi em Tuxcacuesco que me apanhou o tremor de terra, deve ter sido em El Pochote. Mas El Pochote é um rancho, não é?


Juan Rulfo, O dia do desmoranamento, in A Planície em Chamas (Trad. Ana Santos), cavalo de ferro

22/07/08

A lua

Juan Miró, A lua verde

A lua (dizem os ingleses)
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma ideia se perde.
E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De sentir e de pensar*
Sim, todos os meus reveses
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando.

14. 11. 1931
(a.m. early)
* Var.: De... não sei se é desejar.
Fernando Pessoa, Quadras E Outros Cantares, Círculo de Leitores

19/07/08

SEM TÍTULO E BASTANTE BREVE

tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas
quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde, não sei
onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar

dizem, que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito in-
terrogar-se acerca da melancolia das mãos
esta memória-lâmina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangue? e da água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão

Al Berto, Degredo no Sul, Assírio & Alvim