28/05/08
Não compreendem nada
«Tenha a amabilidade, penteie-me as orelhas.»
Num repente o barbeiro pelado virou conífera eriçada,
a sua cara alongou-se como uma pêra.
«Ele é tolo!
Anormal!» -
e as palavras foram-se aos saltos.
O insulto ressaltava de ganido em ganido,
e lon-on-ongamente
uma espécie de cabeça fez troça,
extraída da multidão, como um velho rabanete.
Vladimir Maiakovski, "33 poesias", trad. Adolfo Luxúria Canibal, quasi
25/05/08
Da floresta...
Robert Walser, Histórias de amor, Relógio d' Água (Trad. Isabel Castro Silva)
10/05/08
Fatalidade
Esta pintura decorava uma das paredes da casa de Goya (conhecida como "La quinta del sordo"). A cabeça de um cão surge no meio de uma mancha escura e olha para algo ou alguém que está fora da composição. É considerada uma das mais enigmáticas das "Pinturas Negras".
Por que escrevo?
03/05/08
27/04/08
25/04/08
the great Picasso
if you can bounce high, bounce for her too,
till she cry "lover, gold-hatted, high-bouncing lover,
i must have you!"
vara verde com olhos
Joseph Brodsky, "marca d'água", trad. Ana Luísa Faria, d. quixote
19/04/08
Da imperfeição
Sophia de Mello Breyner Andresen, PRAIA, in Contos Exemplares, figueirinhas, 2006
12/04/08
Duas formas de dizer
Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más - boas ou más, que a gente nunca sabe com qual é que vai para o Diabo.
Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.
Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. [...] Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte [...].
Porque só há duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.
Tudo o mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes. "
09/04/08
"a ternura súbita"

"David olha para Karin e diz: não pude, não soube manifestar a ternura, tudo isso que é feito de tacto e intimidade, a única coisa que conta, a única coisa que alivia da angústia e do ódio. A única coisa que suaviza o facto de estarmos neste mundo."
Ingmar Bergman, "Dependência", trad. Armando Silva Carvalho, assírio & alvim
bula livresca
"O traço definitivo de todo o poeta é sempre o espírito com que observa a Natureza e a Humanidade, o temperamento a partir do qual contempla a sua matéria. Com que têmpera e com que fé se comunicam estas coisas? A que época se molda o canto? Quais são as ferramentas do poeta, o seu engenho peculiar, os seus matizes? Em tais perguntas está sem dúvida contido o valor último daqueles que se expressaram artisticamente, tanto no passado – os estetas gregos, Shakespeare – como nos nossos dias Tennyson, Victor Hugo, Carlyle, Emerson. Digo que o melhor serviço que um poema ou um escritor qualquer pode prestar ao leitor não é satisfazer o seu intelecto, nem oferecer-lhe algo interessante e refinado, nem pintar para ele grandes paixões, indivíduos ou acontecimentos, mas inculcar-lhe vigorosa e limpa humanidade, religiosidade, dar-lhe, como possessão e hábito central, um bom coração. O mundo culto parece ter incrementado o seu tédio e fastio ao longo das épocas, trazendo essa herança para a descarregar sobre nós, Por sorte, há ainda na raça um fundo inesgotável de alegria, ao qual se pode recorrer sempre e no qual sempre se pode confiar."
Walt Whitman, "Folhas de Erva", trad. José Agostinho Baptista, assírio & alvim
30/03/08
palavra com pólen*
Ingmar Bergman, "Lanterna Mágica", trad. Alexandre Pastor, caravela
*notazinha dispensável: este excerto esteve em risco de não ser transcrito devido ao nome da editora. foi a custo que o escrevi, precavendo-me dos prováveis espirros com uma mola a apertar-me as fossas nasais. não que se perdesse grande coisa. ao invés, não que se ganhe alguma coisa. fica assim patente a hesitação do modesto e ridículo transcritor. dita a nota, passe-se ao largo da explicação sobre a dificuldade da escrita de tal palavra. tu lá a entenderás, "pois sim"?
discurso de Thomas Bernhard
Dogníssima assistência
Não há nada a exaltar, nada a condenar, nada a acusar, mas há muitas coisas risíveis, tudo é risível quando se pensa na morte.
Atravessa-se a vida, recebem-se impressões, não se recebem impressões, atravessa-se a cena, tudo é intercambiável, recebe-se uma formação mais ou menos boa no armazém de acessórios: grande erro! Percebe-se: um povo que não suspeita de nada, um país formoso - o dos pais mortos ou conscienciosamente sem consciência, dos homens com a simplicidade e a baixeza, a pobreza das suas necessidades.
Tudo é pré-história altamente filosófica e insuportável.
Os séculos são pobres de espírito, o demoníaco em nós é a prisão perpétua do país dos pais onde as componentes idiotia e brutalidade mais intransigente se tornaram quotidiana necessidade. O estado é uma estrutura permanentemente condenada ao fracasso, o povo uma estrutura sempre condenada à infância e à fraqueza de espírito. A vida é o desespero em que se apoiam as filosofias, em que tudo, finalmente, está prometido à demência.
Somos austríacos, somos apáticos, somos a vida como indiferença, vulgarmente compartilhada, perante a vida; somos no processo da natureza, a loucura das grandezas, o sentido da loucura das grandezas como futuro.
Não há nada a dizer, a não ser que somos lamentáveis, sucumbimos por imaginação a uma espécie de monotonia filosófica-económica-mecânica.
Instrumentos da decadência, criaturas da agonia, tudo se torna claro para nós, não compreendemos nada. Povoamos um traumatismo, temos medo, temos todo o direito a ter medo, e em última análise avistamos já, por muito indiferente que as suas formas nos apareçam, os gigantes da angústia.
Aquilo que pensamos já foi pensado, o que sentimos é caótico, o que somos é obscuro.
Não há que ter vergonha: não somos nada e só merecemos o caos.
Muito obrigado.
Thomas Bernhard, "Trevas", trad. Ernesto Sampaio, Hiena
26/03/08
Bernhard numa das suas pessoas ou o falajar de um exagerado lúcido
Thomas Bernhard, "Trevas", trad. Ernesto Sampaio, Hiena
Gritar

"O panarício produz um sofrimento atroz. Mas o que mais me fazia sofrer era não poder gritar. Pois eu estava num hotel. A noite acabava de descer, e o meu quarto ficava entalado entre outros dois onde pessoas dormiam.
Então, comecei a tirar do crânio grandes tambores, cobres, e um instrumento que ressoava mais que um órgão. E aproveitando a força prodigiosa que a febre me dava, organizei uma orquestra ensurdecedora. Tremia tudo com as vibrações.
Depois, tendo enfim a certeza de que naquele tumulto a minha voz não se ouviria, pus-me a urrar, a urrar horas a fio, e consegui a pouco e pouco aliviar-me."
Henri Michaux, "As Minhas Propriedades", trad. José Carlos González, Fenda
13/03/08
01/03/08
Dualidades
Raul Brandão, A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore, Relógio D’ Água, 2005


