18/04/09

Olha. A lua e as folhas escuras.

#
- Que disseste?
- Não disse nada.
- Não disseste nada. Não. Mas voltaste ao mesmo.
- Ao mesmo? – disse Mark.
- Voltaste ao mesmo.
- São quatro horas. Estou cansado.
- O que fazes quando estás cansado, vais-te deitar?
- Exacto.
- Dormes como uma pedra.
- Claro.
- Que fazes quando acordas?
- Passo o dia a andar.
- Olhas para onde vais?
- Vou onde for.
- Gostava de te perguntar uma coisa – disse Len.
- Sem dúvida.
- Estás preparado para responder a uma pergunta?
- Não.
- Mas dizes que não fazes perguntas. Se não respondes e não perguntas, que é que fazes?
- Passo o dia a andar.
- E dormes como uma pedra.
- Exacto.
- Que fazes durante o dia quando não estás a andar?
- É essa a pergunta?
- Hã?
- Que pergunta?
- Continua.
- Não é a pergunta que te ia fazer.
- E qual é?
- É outra coisa.
- É tudo outra coisa.
- Vá, deixa-te disso.
- Está bem. Continua – disse Mark.
Len levantou-se.
- Que queres dizer com continua? – disse ele. – Fiz-te uma pergunta e tu não respondeste.
- E qual era a pergunta?
- O que fazes durante o dia quando não estás a andar?
- Descanso.
- Onde é que encontras sítio para descansar?
- Aqui e ali.
- Por mútuo consentimento?
- Invariavelmente.
- Mas não és exigente?
- Sou, sou exigente.


##
- Diz-me, cá.
- Sim?
- És capaz de correr na neve sem deixar pegadas?
- Acho que sim.
- Deves ser capaz disso, eu sei.
- Acho que conseguia.
- Tens a certeza?
- Achas que não conseguia?
- Acho que conseguias.
- Desde o princípio que o sabias.
- Soube-o desde o princípio – disse ele. – Está aí nos teus olhos.
- Sempre aí esteve?
- Sempre. E no teu corpo.
- Esteve sempre no meu corpo?
- Sim, sempre.
- No teu corpo também - disse ela.
- A sério?
- Sim.
- O teu corpo – disse ele. – Sempre esteve em todo o teu corpo.
- Sempre.
- Nunca vi as tuas pernas, acima do joelho.
- Pois não.
- Levanta a saia.
- Hum?
- Levanta a saia.
- Assim?
- Sim. Continua.
- Assim?
- Deixa-a.
- Assim?


Harold Pinter, Os anões (trad. José Lima), Dom Quixote

02/04/09

abre as asas e fala...



Fala deixa cair uma palavra
Bons-dias dormi todo o Inverno e agora desperto
Fala
Uma piroga desliza em direcção à luz
Uma palavra veloz avança a toda a vela
O dia tem forma de rio
Em suas represas brilham as plumas de teus cantos
Doçura da água na erva adormecida
Água clara vogais para beber
Vogais para adornar uma fronte uns tornozelos
Fala
Atinge o cume dum momento de júbilo
E logo abre as asas e fala sem cessar
Passa um rosto esquecido
Passas tu própria com teu andar de vento num campo de milho
A infância com suas flechas e seu ídolo e sua figueira
Desata as amarras e passa com a torre e o jardim
Passa o futuro e o passado
Horas já vividas e horas por viver
Passam relâmpagos que levam no bico pedaços de tempo ainda vivos
E escrevem teu nome nas costas nuas do espelho!
Fala
Molha os lábios na água que da pedra inesgotavelmente brota
Submerge teus brancos braços na água grávida de profecias iminentes


Octavio Paz, Antologia Poética, in Manancial (org. e trad. Luís Pignatelli), Publicações Dom Quixote

08/03/09

partir est mourir un peu

"Conforme estamos juntos ou afastados, assim te conheço de duas maneiras diferentes. Tu és duas pessoas.
Quando estás longe, continuas presente em mim. É uma presença que reveste as formas mais diversas: imagens incontáveis, passagens de livros, significações, coisas familiares, marcas na terra; mas o conjunto de tudo isso fica difuso pela realidade da tua ausência. É como se o teu ser se transformasse em lugar, os contornos do teu corpo em horizontes. Vivi portanto em ti como se vivesse num país. Tu existes em todo o lado. Nesse país, contudo, nunca te poderei encontrar face a face.
Partir est mourir un peu. Era muito novo quando ouvi esta frase pela primeira vez e logo percebi que ela exprimia uma verdade que eu já sentia. Recordo-a agora, porque a experiência de viver em ti como num país onde é impossível encontrarmo-nos face a face parece-se com a experiência de viver com a recordação dos mortos. O que eu não sabia quando era novo é que nada elimina o passado: o passado vai crescendo gradualmente à nossa volta como placenta da morte.
No país que tu és conheço os teus gestos, as entoações da tua voz, a forma de todas as partes do teu corpo. Fisicamente: não és menos real mas és sem dúvida menos livre.
O que muda quando estás presente em carne e osso, é o facto de te tornares imprevisível. Cada gesto que faças é-me desconhecido. Sigo-te. Tu ages. E no que fazes, vejo-me de novo enamorado."

John Berger, "e os nossos rostos, meu amor, fugazes como fotografias", quasi

24/02/09

El hombre imaginario

El hombre imaginario
vive en una mansión imaginaria
rodeada de árboles imaginarios
a la orilla de un río imaginario.

De los muros que son imaginarios
penden antiguos cuadros imaginarios
irreparables grietas imaginarias
que representan hechos imaginarios
ocurridos en mundos imaginarios
en lugares y tiempos imaginarios.

Todas las tardes imaginarias
sube las escaleras imaginarias
y se asoma al balcón imaginario
a mirar el paisaje imaginario
que consiste en un valle imaginario
circundado de cerros imaginarios.

Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario.

Y en las noches de luna imaginaria
sueña con la mujer imaginaria
que le brindó su amor imaginario
vuelve a sentir ese mismo dolor
ese mismo placer imaginario
y vuelve a palpitar
el corazón del hombre imaginario.

Nicanor Parra

22/02/09

Não sei nada

“Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soletrar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora “pássaro” seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei.”

Ruy Belo, "todos os poemas - vol. I", Assírio & Alvim

20/02/09

Arcos de luar

Xilofone
“Jogo infantil. Água de madeira. Princesas a fiar no jardim, raios de luar.”
Uma traição inqualificável
“O meu único inimigo, provocador e brigão, era o vento. Quase todas as noites, antes de entrar no meu quarto, deixava-o silvar alegremente abraçado a um poste da rua, ou entretido com os papéis que pastavam pela calçada. Mas, mal eu me despia, e a cadeira complacente sacudia o pó e abria os braços para me receber, o vento começava a bater violentamente contra a janela, tentando insinuar-se por alguma fenda, ou abri-la à força; a minha janela, porém, cruzava bem os seus dois rudes e únicos dedos, e mofava do vento.”
A agradável consigna de Santa Huesca
“[…] É um vulgar tiquetaque que ora saltita, ora pergunta, ora se concentra esgrimindo um livro, ora derruba um carro eléctrico que segue à cabeça da multidão. Este tiquetaque não tem a ver com as mortes nem com a história. Feitas as contas, vai ao que os outros vão.”
J.F. Aranda, Os poemas de Luis Buñuel (trad. Mário Cesariny), Assírio & Alvim

01/02/09

Quando a criança era criança

"As Asas do Desejo", Wim Wenders

Quando a criança era criança
andava com os braços a baloiçar.
Queria que o ribeiro fosse um rio,
que o rio fosse uma corrente,
e que esta poça fosse o mar.

Quando a criança era criança,
não sabia que era criança.
tudo era cheio de vida
e toda a vida era uma.

Quando a criança era criança,
não tinha opinião de nada.
Não tinha hábitos, ficava muitas vezes
sentada de pernas cruzadas,
fugia, tinha um remoinho no cabelo
e não fazia uma cara sorridente
quando tirava fotografias.

Excerto do poema do Peter Handke, dito no início do filme "As Asas do Desejo" ("Der Himmel Über Berlin", 1987), Wim Wenders.

23/01/09

O lirismo do alfabeto

Sinto-me arrebatado pelas letras,
atacam-me, cegas, de noite,
invadem-me:
cercam-me durante o dia,
tomando-me de assalto os olhos,
arrancando-me o sono e projectando-o
da sombra para a luz,
da luz para a sombra, inexoravelmente.
Guerra sem fim e sem quartel,
mortal e alegre a cada instante.
Rimbaud deu cores às vogais,
mas cada letra - todo o alfabeto -
se expande numa cor, torna visível,
até quase pode tocar-se, o seu som.
Eis aqui a armada invicta,
as guardas avançadas da palavra,
torres maiúsculas,
fortes capitães, que em batalha contínua, entrelaçados,
provocam desde há séculos todas as comoções,
ligeiras ou profundas,
do ser, do pensamento.
Pintura, poesia, caligrafia e música
- folhas, estrelas, flores - ei-las aqui, num só ramo.
O alfabeto é tudo.
Na caligrafia, exaltada, ressoa cada coisa.
Dum extremo ao outro,
percorre o mundo o lirismo do alfabeto. Escutai.
Todas as letras cantam nas antenas.

Rafael Alberti (Trad. Albano Martins)

19/01/09

Ernesto Sabato, Daniel Mordzinski (foto retirada daqui)

náufragos exaustos

Quando somos sensíveis, quando os nossos poros não estão cobertos pelas capas implacáveis, a proximidade da presença humana sacode-nos, dá-nos alento, compreendemos que é sempre o outro que nos salva. […] Muitas vezes, somos incapazes de um genuíno encontro porque só reconhecemos os outros na medida em que definem o nosso ser e o nosso modo de sentir, ou porque são propícios aos nossos projectos. Não podemos ficar num encontro porque estamos cheios de trabalho, de coisas para tratar, de ambições. E porque a magnitude da cidade nos supera. Então, o outro ser humano não nos chega, não o vemos. Está mais ao nosso alcance um desconhecido com quem falamos através do computador. Na rua, no trabalho, nos infinitos expedientes, sabemos – abstractamente – que estamos a lidar com seres humanos, mas, concretamente, tratamos os outros como se fossem servidores informáticos ou funcionais. Não vivemos esta relação de um modo afectivo, é como se tivéssemos uma capa de protecção contra os acontecimentos “desviantes” da atenção. Os outros incomodam-nos, fazem-nos perder tempo. O que deixa o homem espantosamente só, como se no meio de tantas pessoas, ou por isso mesmo, o autismo se propagasse.
Ernesto Sabato, Resistir (trad. Carlos Aboim de Brito), Dom Quixote

01/01/09

Vais à água?

#
A tua casa, sendo o local onde lês, pode dizer-nos que lugar ocupam os livros na tua vida, se são uma defesa que pões à frente para manteres afastado o mundo exterior, um sonho em que mergulhas como numa droga, ou se são pontes que lanças para o exterior, para o mundo que te interessaa tanto que queres dilatar e multiplicar as suas dimensões através dos livros.
##
Trazes o livro que estavas a ler no café e que estás impaciente por continuar, para depois poderes passar-lho, para comunicares de novo com ela através do canal aberto pelas palavras alheias, que justamente por serem pronunciadas por uma voz estranha, pela voz do silencioso ninguém feito de tinta e de espaçamentos tipográficos, podem tornar-se vossas, uma linguagem, um código entre vós, um meio de trocarem sinais e reconhecerem-se.
Italo Calvino, Se numa Noite de Inverno um Viajante (trad. José Colaço Barreiros), teorema

21/12/08

o toque da luz

"Mas da lua ela não tinha receio porque era mais lunar que solar e via de olhos bem abertos nas madrugadas tão escuras a lua sinistra no céu. Então ela se banhava toda nos raios lunares, assim como havia os que tomavam banhos de sol. E ficava profundamente límpida."

Clarice Lispector, "uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", relógio d'água

01/12/08

E tu poderias?

De repente salpiquei para fora do copo de tinta
um mapa do quotidiano.
Mostrei num prato de geleia
as oblíquas maçãs do rosto do oceano.
Nas escamas de um peixe de ferro branco
li o apelo de lábios novos.
E tu,
poderias tu
tocar um nocturno
com a flauta das goteiras?

Vladimir Maiakovski, 33 Poesias (Trad. Adolfo Luxúria Canibal), edições quasi

25/11/08

respirar e ver

‒ Fui sempre um desgraçado ‒ disse. ‒ Mas mais que desgraçado, um miúdo. Certas noites custa-me ir dormir, porque me parece tempo perdido. Queria estar sempre desperto, disposto a respirar e a ver. Ver, ver sempre: bastar-me-ia. Para mim é um prazer enlouquecer, sair de casa e olhar o tempo, a gente que passa, sentir-lhe o perfume. Depois é bom pensar nisso. Há humilhações, mas paciência.

Cesare Pavese, vocação, in férias de agosto (Trad. Ana Hatherly), quasi

23/11/08

Transparências

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A cama era um pesadelo. A “casa de banho” tinha um bidé (suficientemente grande para que nele se instalasse um elefante de circo, sentado), mas não tinha banheira.

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Posso decorar uma página inteira da lista telefónica em três minutos exactos, mas sou incapaz de me lembrar do meu próprio número de telefone. Posso compor páginas de poesia tão estranha e nova como tu, ou como qualquer coisa que alguém possa escrever daqui a trezentos anos, mas nunca publiquei um verso sequer […] Posso levitar uma polegada e manter-me assim por dez segundos, mas não consigo trepar a uma macieira. Possuo uma licenciatura em Filosofia, mas não aprendi alemão. Apaixonei-me por ti, mas não farei nada quanto a isso. Em resumo, sou um génio absoluto.

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Se, como acontecia às vezes, nas horas mais cinzentas, sem a mais remota intenção sexual, ele interrompia a sua leitura, para ir até ao quarto dela avançando sobre os joelhos e os cotovelos, como uma preguiça extática, indescritível, inarbórea, uivando a sua adoração, a fria Armande dir-lhe-ia que se levantasse e deixasse de se armar em parvo. Os nomes mais ardentes que conseguia imaginar – minha princesa, minha querida, meu anjo, meu bichinho, minha fera felina – só a exasperavam. “Mas por que razão”- perguntava ela, “não consegues falar comigo de uma forma humana, natural, como um cavalheiro fala com uma senhora, por que tens de inventar estas palhaçadas, por que não consegues ser sério e simples e credível?”

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Viu um 313 muito preto sobre uma porta muito branca e lembrou-se instantaneamente de como tinha dito a Armande (que lhe prometera visitá-lo e não quis que a anunciassem): "Mnemonicamente deve ser imaginado como três homenzinhos de perfil, um preso que passa com um guarda que vai à frente e outro guarda atrás." Armande replicara que isso era muito complicado para ela e que o anotaria simplesemente na agendinha que trazia na carteira.

Vladimir Nabokov, Transparências (Trad. Margarida Santiago), Teorema

22/11/08

porcos-espinhos prateados

As únicas palavras que a abriam eram as palavras abafadas dos poetas, tão raramente proferidas pelos seres humanos. Somente elas a penetravam sem despertar os guardas eriçados, de vigia aos portões, trajados como porcos-espinhos prateados, armados de desconfiança, barrando o caminho que levava aos recessos secretos dos seus pensamentos e emoções.
Diante da maior parte das pessoas, da maior parte dos lugares, da maior parte das situações, da maior parte das palavras, o ser de Djuna, de dezasseis anos, fechava-se hermeticamente no silêncio. As sentinelas eriçavam-se: vem aí alguém! E todas as passagens que conduziam ao seu interior se fechavam.
Hoje, enquanto mulher adulta, conseguia perceber que essas sentinelas não se tinham limitado a defendê-la – tinham construído verdadeiros fortes sob essa máscara de branda timidez, fortes com buracos camuflados que escondiam armas construídas pelo medo.

Anaïs Nin, os Filhos do Albatroz (Trad. Tânia Ganho), Bico de Pena

12/11/08

a lua era feita de açúcar

quando era criança julgava que a lua era feita de açúcar. sentava-me no poial, olhava a roupa estendida a secar mover-se na brisa e os hibiscos vermelhos tremendo no fogo da lua cheia. ficava muito quieto, esperava que a noite se tornasse mais densa, misteriosa, e deixasse cair fios prateados sobre o jardim. acreditava que, um dia, a lua derreteria e todo o jardim se transformaria numa imensa doçaria. então, erguia os olhos para o negrume salpicado de astros, sentia-me ficar adulto. sentia-me crescer por dentro e por fora. no dia seguinte deixei de jogar ao berlinde.

Al Berto, O Medo, Assírio & Alvim

10/11/08

Lá e Não-aqui e Às-vezes

TANTAS CONSTELAÇÕES que
nos são oferecidas. Quando
para ti olhei ‒ foi quando? ‒ estava
lá fora nesses
outros mundos.

Oh, estes caminhos, galácticos,
Oh, esta hora que nos
trouxe as noites lançando-as
na carga dos nossos nomes. Não
é verdade, bem o sei,
que tenhamos vivido, passou,
cego, apenas um sopro entre
Lá e Não-aqui e Às-vezes,
como um cometa, um olho passava vibrante
em busca de fogos extintos, nos desfiladeiros,
no lugar do lume a apagar-se estava
o tempo num esplendor de tetas,
e por ele acima e abaixo já
crescia e passava o que
é ou foi ou há-de ser ‒,

eu sei,
eu sei e tu sabes, nós sabíamos,
não sabíamos, nós
afinal estávamos aqui e não lá
e às vezes, quando
entre nós só havia o Nada, o nosso
encontro era perfeito.

Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde (Trad. João Barrento e Y.K. Centeno), Livros Cotovia

30/10/08

Virá a morte e terá os teus olhos

Virá a morte e terá os teus olhos -
esta morte que nos acompanha
de manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês em cada manhã
quando sobre ti só te inclinas
ao espelho. Ó querida esperança,
nesse dia saberemos também nós
que és a vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como largar um vício,
como ver ressurgir
no espelho um rosto morto,
como escutar lábios fechados.
Desceremos o remoinho mudos.

22 de Março de 1950


Cesare Pavese, "Trabalhar Cansa", trad. Carlos Leite, Cotovia

18/10/08

O vento levar-nos-á

Na minha noite

Na minha noite, infelizmente tão curta
o vento está prestes a encontrar-se com as folhas
das árvores
na minha noite, tão breve, e plena de uma angústia devastadora
ouve
ouves o sussurro das sombras?
esta felicidade é-me desconhecida
estou habituada ao desespero.

Ouves o sussurro das sombras?
ali, na noite, algo acontece
a lua é vermelha e ansiosa
e sobre este telhado
que a qualquer momento pode ruir
as nuvens, qual procissão de carpideiras
aguardam o nascimento da chuva.
Um segundo
depois nada
atrás desta janela a noite treme
e a terra pára de girar
atrás desta janela
qualquer coisa desconhecida inquieta-se comigo e contigo

Tu, verde dos pés à cabeça
coloca as tuas mãos, essas memórias
escaldantes,
nas minhas mãos amorosas
entrega os teus lábios ao toque
dos meus lábios amorosos
repletos do calor da vida
o vento levar-nos-á
o vento levar-nos-á.

Forough Farrokhzad (poema retirado daqui.)

11/10/08

o perfeito pulsar irregular das frases

"O velho dar e receber intergeracional do país de antanho, quando todos sabiam o que tinham a fazer e aceitavam as regras com toda a seriedade, o avançar e recuar aculturante com que todos nós havíamos crescido, a luta ritual pós-imigrante pelo sucesso acabando em algo de patológico no castelo do gentleman farmer, logo aí, do nosso supervulgar Sueco. Um tipo todo arrumadinho como um baralho de cartas e, ao fiam e ao cabo, as coisas a desenrolarem-se de uma maneira totalmente diferente. De modo algum preparado para o que lhe iria cair em cima. Como é que ele alguma vez podia, como toda aquela bondade cuidadosamente calibrada saber que a aposta de viver obedientemente era tão alta? Assume-se a obediência para fazer baixar a aposta. Uma bela vida. Uma bela casa. Dirige o negócio que nem uma maravilha. Gere muito bem a sua velhice. Estava realmente a viver a sua versão do paraíso. É assim que vivem as pessoas de sucesso. São bons cidadãos. Sentem-se com sorte. Sentem-se gratos. Deus sorri-lhes. Quando há problemas, adaptam-se. E de repente tudo muda e torna-se impossível. Já nada sorri a ninguém. E quem é, então, capaz de se adaptar? Aqui temos alguém que não está preparado para suportar uma vida medíocre, quanto mais o impossível! Mas quem é que está preparado para o impossível que vai acontecer? Quem está preparado para a tragédia e para a incompreensão do sofrimento? Ninguém. A tragédia do homem que não está preparado para a tragédia - é esta a tragédia de todos os homens."


Philip Roth, "Pastoral Americana", trad. Maria João Delgado e Luísa Feijó, D. Quixote

colheita de estrelas

"Periscianos entre a noite e a manhã caímos em espiral, desde sempre. Não existem leis, não, e também não há ritmo. Não há centro. Nem unidade, nem tempo nem espaço. O nosso raciocínio científico é um pobre instrumento de análise; uma rede de malhas cada vez mais fechadas que capta e amarra os termos inertes da nossa dialéctica; um filtro que extrai às palavras todo o espírito, toda a imagem, toda a força criadora, todo o conhecimento, que as isola, descasca, lava, purifica, despoja de toda a ligação, todo o grânulo, toda a escória que arrastavam com elas de nascença para chegar a circunscrever, definir uma coisa única logo metafísica, isto é, nada porque tudo se mantém, liga, salta «e não podemos definir um fio de palha sem desmontar o universo»."

Blaise Cendrars, "O Eubage", trad. Aníbal Fernandes, & etc

mmc

«Segundo o seu ponto de vista o que é que encerra uma maior quantidade de ciência: os livros ou o espírito?»
«Uma pergunta muito perspicaz para uma mulher!», pensei para comigo, apoiando-me no ponto de vista tão natural ao homem de que o espírito da mulher é essencialmente frívolo. E pensei um minuto antes de responder. «Se se refere a espíritos vivos, não julgo possível chegar a uma conclusão. Há tanta ciência escrita que ainda nenhum ser vivo a leu; e há tanta ciência devidamente estudada que ainda não foi escrita. Mas, se se refere a toda a raça humana, então julgo que os espíritos têm essa ciência, tudo o que está registado em livros, deve ter estado noutros tempos em qualquer espírito, compreende?»
«Não é o que acontece com uma das regras algébricas?», quis ela saber. «A álgebra também?», pensei com um espanto crescente. «Quero dizer, se considerarmos os pensamentos como factores, não podemos dizer que o menor múltiplo comum de todos os espíritos contém o que é comum a todos os livros, e não o contrário?»
«De certo que podemos!”, respondi deliciado com a explicação. «E que grande coisa seria», acrescentei num devaneio em voz alta, «se ao menos pudéssemos aplicar essa regra aos livros! Sabe que ao acharmos o menor múltiplo comum excluímos qualquer número onde quer que ele apareça excepto na expressão em que ele está elevado à sua mais alta potência. Deste modo teríamos de apagar todo o pensamento registado, excepto na frase onde está expresso com maior intensidade.»
Ela riu muito divertida. «Receio que alguns livros ficassem reduzidos a papel em branco!», disse.
«Ficariam. O espólio da maioria das bibliotecas ficaria extremamente reduzido. Mas imagine o que ganharia em qualidade!»
«Quando é que isso acontecerá?», perguntou impaciente. «Se isso ainda acontecer no meu tempo, julgo que vou deixar de ler, e esperar por isso!»
«Bem, talvez daqui a uns mil anos, pouco mais ou menos…»


Lewis Carrol, "Sylvie e Bruno", trad. Maria de Lourdes Guimarães, Relógio D'Água

06/10/08

Por certo a Minerva ao seu serviço não usava capacete e era canhota

#
O Inverno parecia mais frio do que costumavam ser os Invernos e Margot procurava em redor qualquer coisa que pudesse pôr no prego: talvez o pôr-do-sol.
##
- Tenho que ficar quieto durante um bocado e depois caminhar muito devagar para a praia luminosa da dor, para aquela onda azul, azul. Que encanto há no azul. Nunca soube o que era o azul azul. Que confusão é a vida. Agora sei tudo.
Vladimir Nabokov, Riso na Escuridão (Trad. Telma Costa), teorema

Alguns detritos periféricos

Embora desprezasse os deuses, incluindo o grande D,
O Iph adoptou alguns detritos periféricos
De visões místicas; e dava instruções
(Os óculos ambarinos para o eclipse da vida) -:
Não se deve entrar em pânico quando se passa a fantasma:
Deslizar, deslizar, escolher uma surdez branda e aportar,
Encontrar corpos sólidos e passar através deles
Ou deixar alguém circular através de nós.
Como localizar na noite, de um olhar,
Terra, a Bela, orbículo de jaspe.
Como não enlouquecer no espaço espiralado.
Precauções a tomar em caso
De reincarnação disforme: que fazer
Se subitamente se descobrir que se é
Um jovem e vulnerável sapo
Espapaçado no meio de uma estrada em movimento.
Ou um filhote de urso sob um pinheiro a arder
Ou uma traça do papel num evangelho revivido.

Vladimir Nabokov, Fogo Pálido (Trad. Telma Costa), teorema

29/09/08

Do vento...

Edward Hopper, Evening Wind, 1921 (British Museum - exposição temporária)

21/09/08

Do não-onde

Um anjo à superfície do não-onde com o pé ligeiramente levantado

Avec le temps

Com o tempo
tudo passa
do possível ao improvável

Com o tempo
deshabitamos
as condições do corpo
a sua assinatura

Com o tempo
descobrimos o sentido fractal -
na face do Banquete
as coisas conhecidas
tornam-se sussurro

O futuro é um despiste amargo
um vértice truncado
que se esfuma

Divorciados do acaso
afastamo-nos calados

No deserto
surdamente gritamos

Ana Hatherly, Itinerários, quasi

17/09/08

SubLinhAdOs*

#

“Em última análise”, escreveu Kafka em 1904 ao seu amigo Oskar PollaK, “parece-me que devíamos ler apenas livros que nos mordam e firam. Se o livro que estivermos a ler não nos desperta violentamente como uma pancada na cabeça, para que nos devemos dar ao trabalho de o ler, como tu dizes? Por Deus, seríamos igualmente felizes sem livros nenhuns; em caso de necessidade, podíamos nós próprios escrever livros que nos tornassem felizes. Do que precisamos é de livros que nos atinjam como a desgraça mais dolorosa, como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós próprios, que nos façam sentir como se tivéssemos sido expulsos para o meio dos montes, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser a picareta para o mar gelado dentro de nós. É isso que penso.”

##

No século XVIII, embora os quartos continuassem a não ser espaços de reclusão, ficar na cama a ler – em Paris, pelo menos – tornara-se suficientemente comum para justificar que São João Baptista de la Salle, o pedagogo e filantropo francês canonizado em 1900, chamasse a atenção para os perigos pecaminosos deste passatempo ocioso. “É completamente indecente e impróprio tagarelar, coscuvilhar ou foliar na cama” escreveu em As regras do Decoro na Civilidade Cristã, publicado em 1703. “Não imiteis certas pessoas que se entregam à leitura e outras actividades; não permaneçais na cama, a não ser que seja para dormir, e a vossa virtude muito aproveitará.”
Alberto Manguel, Uma História da Leitura (trad. Ana saldanha), Editorial Presença

* Falta a aba do chapéu do A, pois sim?


16/09/08

na medida em que tudo pode ser simbólico

"O Acanto (do grego " akantha "), não é apenas uma planta espinhosa de folhas muito longas, verdes e recortadas, também conhecida como "erva-gigante", oriunda dos terrenos húmidos e pedregosos do Sul da Europa, o acanto é algo poético que lembra a pureza de carácter, perfeição moral e trabalho honesto.
(...)
O simbolismo da folha do acanto, muito usada nas decorações antigas e medievais deriva, essencialmente, dos espinhos dessa planta.
Conta certa lenda, narrada por Vitrúvio, que o escultor Calímaco, no final do século V a. c., ao ornamentar um dos capitéis do túmulo de uma menina , se teria inspirado num ramalhete de folhas de acanto. Retém-se dessa lenda o facto de que, pelo menos originalmente e sobretudo na arquitectura funerária, o acanto era usado para indicar que as provações da vida e da morte, simbolizadas pelos espinhos da planta, haviam sido vencidas.
O acanto ornamentava os capitéis coríntios, os carros fúnebres e as vestimentas dos grandes homens, porque os arquitectos, os defuntos e os heróis haviam sido homens que souberam vencer as dificuldades de suas tarefas. Como de tudo que possui espinhos, fez-se igualmente do acanto o símbolo da terra virgem e da própria virgindade, que também significam uma outra espécie de triunfo. Aquele que tiver ornado por essa folha venceu a maldição bíblica: “O solo produzirá para ti espinhos e cardos” (Génesis, 3, 18). No sentido de que a provação vencida se transformou em glória."

Jean Chevalier, «Dicionário de Símbolos», editora José Olympio

respigado daqui

14/09/08

Um pouquinho sublime...

Neste ponto acaba o conto. Sobre o crepúsculo desenha-se o rosto do milionário e do vagabundo, e depois as estrelas, e depois o infinito. Um pouquinho sinistro, não é? Um pouquinho sublime e um pouquinho sinistro. Como em todo o amor louco, não é? Se ao infinito se acrescentar infinito, o resultado é infinito. Se se juntar o sublime com o sinistro, o resultado é sinistro, não é?

Roberto Bolaño, Os Detectives Selvagens (trad. Miranda das Neves), Teorema

11/09/08

Au-dessus-de-la-montagne...


Algures sobre a montanha

10/09/08

Nocturno de.

Martin Lewis, Spring Night, Greenwich Village (British Museum - exposição temporária)

07/09/08

Flor, perfume, relva, céu...

Devo dizer, para ser franca, que já várias vezes tinha acedido a sair com ele. Não para ir ao baile. Ele dizia que não gostava de dançar. Na realidade, não sabia. Mas não me impedia que o fizesse. Eu também não gostava por aí além de dançar. […] Preferia ir até ao campo com ele. Ora me levava a Saint-Germain, ora a Fontainebleau, ora à beira do Sena ou do Marne. Alugávamos um barco. Ele remava. Eu ficava sentada à sua frente sem dizer nada. Ele também não dizia palavra. Olhava para mim enquanto remava e de vez em quando sorria-me. Eu então também sorria para ele. À volta, tomávamos um “panaché”, com umas batatas fritas, numa tasquinha lá do sítio e voltávamos de comboio, ou numa camioneta à pinha, com os braços atafulhados de flores do campo. Flores que cheiravam bem. De regresso a Paris, quase me sentia asfixiar. Gostaria de ter lá ficado, em Athis-Mons ou em Gagny, uma semana inteira deitada na relva ao pé dele, a olhar para o céu.

Raymond Guérin, Jaquina (Trad. Luiza Neto Jorge), in A Pele Calejada, Assírio & Alvim

nada passa

"Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que, ano após ano, recua diante dos nossos olhos. Nessa altura iludiu-o, mas não importa - amanhã correremos mais depressa, esticaremos mais os braços...E uma bela manhã...
Assim vamos persistindo, como barcos contra a corrente, incessantemente levados de volta ao passado."


Scott Fitzgerald, "o grande Gatsby", trad. Fernanda César, Europa-América

Recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


Al Berto, "vigílias", Assírio & Alvim

31/08/08

kibbutz... ki-bbu-tz

Estava menos frio junto ao Sena do que nas ruas. Oliveira subiu a gola da canadiana e foi contemplar o rio. Como não era dos que se atiram, procurou uma ponte para se abrigar debaixo dela e pensar no kibbutz por um bocado. Já há algum tempo que a ideia do kibbutz o assaltava, um kibbutz do desejo. “É engraçado como uma frase aparece assim de repente e não tem qualquer sentido, um kibbutz do desejo. Porém, depois da terceira vez que se repete começa a clarificar-se lentamente, e de um momento para o outro sente-se que não se trata de uma frase absurda […] é um resumo até bastante hermético de andar às voltas por aí, de deambulação em deambulação. […]”

Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), trad. Alberto Simões, cavalo de ferro

28/08/08

Não importa com quem

Não importa com quem.
Não importa porquê.
Não importa para quê.
Importa que sejas de novo o fruto sadio desta longa demora
com lábios nascentes nos olhos de outrora.
Importa que a nudez volte pura outra vez.
Não importa porquê!

Amélia Vieira, Fim, cavalo de ferro

Encontro

Algures sobre o rosto da terra (outra carta-postal)

Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio vi-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
[...]
António Ramos Rosa, Nuvens, in Antologia Poética, Publicações Dom Quixote

27/08/08

Dignidade profissional

Eu sou um carácter forte!
Sei dominar-me.
Não o deixava transparecer, mas estavam em jogo o trabalho de longos anos, o reconhecimento do meu talento, todo o meu futuro.
‒ Sou um artista imitador ‒ disse.
‒ O que é que sabe? ‒ perguntou o director.
‒ Imito o canto dos pássaros.
‒ Infelizmente ‒ fez um gesto de renúncia com a mão ‒, isso já passou de moda.
‒ Como? O arrulhar da rola? O chilrear do milheiro nos caniçais? O gorjeio da codorniz? O grito da gaivota? O cantarolar da cotovia?
‒ Passou ‒ disse o director aborrecido.
Aquilo magoou-me. Mas penso que não o mostrei.
‒ Adeus ‒ disse eu com cortesia, e saí a voar pela janela aberta.

István Örkény, Histórias de 1 minuto, vol. 1 (trad. Piroska Felkai), cavalo de ferro

21/08/08

fantasia e realidade

Edward Hopper, Night on the El Train, 1918 (British Museum - exposição temporária)

azul-sonho

Pablo Picasso, Child with a Dove, 1901 (The National Gallery)

01/08/08

Peixes prisioneiros

“Eu achava que a lama me fora dada para gozar as belezas do mundo, a luz do luar na alaranjada crista de uma nuvem e a gota de orvalho que estremece em cima de uma rosa. Mas enquanto fui criança, pensei sempre que a vida me reservava um acontecimento sublime e belo. Mas à medida que analisava a vida dos outros homens, descobri que viviam aborrecidos, como se vivessem num país onde chove sempre, onde os raios da chuva lhes deixaram no fundo das pupilas tabiques de água que lhes deformavam a visão das coisas. E compreendi que as almas se moviam na terra como os peixes prisioneiros num aquário. Do outro lado das esverdeadas paredes de vidro estava a bela vida musical e altíssima e onde tudo seria distinto, forte e múltiplo e onde os novos seres de uma criação mais perfeita, com os seus belos corpos, saltariam numa atmosfera elástica. Nessa altura dizia-me: “É inútil, tenho de fugir da terra”.

Roberto Arlt, Os sete loucos, (Trad. Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues), cavalo de ferro

29/07/08

frases que trazem quadros ao de cima

( quadro de Eduardo Murcho, gritinho)


"Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito."

Clarice Lispector, "a paixão segundo G.H.", relógio d'água

meter a mão ao bolso do

"O Tempo, doutor, é a própria serenidade combatendo a natureza. Uma vez, disse o príncipe, dispus-me aqui no Hochgobernitz a atrasar todos os dias os relógios uma hora, até que a certa altura estávamos atrasados três dias. Poderia perfeitamente ter atrasado os relógios do Hochgobernitz vários dias, semanas, até anos. Diverti-me mesmo! Quem viver todos os dias nem que seja uns instantes a mais, quando chegar ao fim tem mais uma vida vivida, disse o príncipe."


Thomas Bernhard, "perturbação", relógio d'água

correr lado a lado ao lado do tempo. ultrapassá-lo e ganhar, perdendo.

"A G.H. vivera muito, quero dizer, vivera muitos factos. Quem sabe eu tive de algum modo pressa de viver logo tudo o que tivesse a viver para que me sobrasse tempo de...de viver sem factos? de viver. Cumpri cedo os deveres de meus sentidos, tive cedo e rapidamente dores e alegrias - para ficar depressa livre do meu destino humano menor? e ficar livre para buscar a minha tragédia."

Clarice Lispector, "a paixão segundo G.H.", relógio d'água

27/07/08

Tu não te lembras?

‒ Isso aconteceu em Setembro. Não em Setembro deste ano mas sim do ano passado. Ou foi no ano anterior, Melitón?
‒ Não, foi no ano passado.
‒ Sim, eu bem me lembrava. Foi em Setembro do ano passado, pelo dia vinte e um. Ouve-me, Melitón, não foi a vinte e um de Setembro o dia do tremor de terra?
‒ Foi um pouco antes. Quer-me parecer que foi a dezoito.
‒ Tens razão. Eu por esses dias andava em Tuxcacuesco. Até vi quando se desmoronavam as casas como se fossem feitas de mel, simplesmente, retorciam-se assim, fazendo trejeitos, e vinham as paredes inteiras para o chão. E as pessoas saíam dos escombros todas aterrorizadas, correndo direitinhas para a igreja aos gritos. Mas esperem. Ouve, Melitón, parece-me que em Tuxcacuesco não existe nenhuma igreja. Tu não te lembras?
‒ Não há. Ali não restam senão umas paredes feitas em quatro bocados que dizem que foi a igreja há coisa de duzentos anos; mas ninguém se lembra dela, nem de como era; aquilo mais parece um curral abandonado infestado de figueirinhas.
‒ Dizes bem. Então não foi em Tuxcacuesco que me apanhou o tremor de terra, deve ter sido em El Pochote. Mas El Pochote é um rancho, não é?


Juan Rulfo, O dia do desmoranamento, in A Planície em Chamas (Trad. Ana Santos), cavalo de ferro

22/07/08

A lua

Juan Miró, A lua verde

A lua (dizem os ingleses)
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma ideia se perde.
E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De sentir e de pensar*
Sim, todos os meus reveses
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando.

14. 11. 1931
(a.m. early)
* Var.: De... não sei se é desejar.
Fernando Pessoa, Quadras E Outros Cantares, Círculo de Leitores

19/07/08

SEM TÍTULO E BASTANTE BREVE

tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas
quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde, não sei
onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar

dizem, que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito in-
terrogar-se acerca da melancolia das mãos
esta memória-lâmina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangue? e da água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão

Al Berto, Degredo no Sul, Assírio & Alvim

É noite

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou,fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
(...)

Carlos Drummond de Andrade

18/07/08

aves combatentes de bochechas vermelhas

Não lhes foi difícil encontrar a praça onde haveria as execuções: o povo convergia para lá de todas as direcções. Naquele século grosseiro, aquilo era um espectáculo dos mais divertidos, não só para a plebe mas também para as classes superiores. […]
No primeiro plano, ao lado dos soldados de bigodaça que constituíam a guarda municipal, estava um jovem szlachcic que vestira uma farda militar e tudo, mas tudo, o que tinha lá em casa para vestir, com excepção de uma camisa rota e de umas botas velhas. Pendiam-lhe do pescoço duas correntes com uma moedinha. Estava com a namorada e, volta e meia, olhava ao redor para que ninguém sujasse o vestido de seda da menina. Explicava-lhe tudo, mas tudo, exaustivamente. “Olhe, alminha – dizia ele –, aqui está o povo que veio ver a execução dos criminosos. E aquele homem que a menina vê ali e que tem nas mãos a acha e outros instrumentos é o carrasco que vai executar os criminosos. Antes, durante o suplício da roda, o criminoso ainda estará vivo, alminha, só morrerá de uma vez quando lhe cortarem a cabeça. Antes disso vai gritar e estrebuchar, mas quando o decapitarem já não poderá gritar, comer ou beber, porque, alminha, já não terá cabeça.” E a menina ouvia tudo com medo e curiosidade.

Nikolai Gógol,Tarás Bulba, in Mírgorod (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra), Assírio & Alvim

17/07/08

papoulas breves

Vincent Van Gogh, Butterflies and Poppies, San Remy, 1890

sabes, as aves aquáticas já não pernoitam junto ao mar
nem por entre os nossos dedos de areia
sobem-nos vozes calcárias à garganta, estrangulo-me neste
humilde canto, fico atento ao eterno silêncio do teu castelo

às vezes escuto o teu cantar, raramente, é certo… mas quan-
do cantas saem-te nomes puros da boca e sorrisos diáfanos
de cristais
os lábios incendeiam-se com vinho, teu corpo adquire o sa-
bor misterioso das algas
no crepúsculo expande-se o pefume a moreia frita, teu
olhar é o mosto dos nossos desejos

dançamos à roda de um mastro, saia em papel de seda borda-
da com búzios… uma quadra flutua pela noite de nossos cabelos
rodopias, e os teus amores são relembrados pela noite adiante
espalham-se estrelas cadentes, papoulas breves, junco mo-
lhado
e o mar enche-se novamente de pássaros, embarcações se-
melhantes a beijos que nos percorrem de alegria

Al Berto, Degredo no Sul, Assírio & Alvim

27/06/08

Litania

[...] Spurius*, triste, de olhar fixo, com as mãos a tremer, gagueja:
– Houve um tempo em que eu não existia e houve um tempo em que tu não existias. Haverá talvez um tempo em que eu deixe de existir e tu existas, ou talvez um tempo em que tu não existas e eu exista. Serão sem dúvida os tempos mais tristes. Depois haverá um tempo em que ambos já não existiremos e nunca mais voltaremos a existir.
Enquanto ele falava, Spatalé repunha azeite nas candeias. Eu** acariciava-lhe com o dedo as costas da mão, que tremia.

Pascal Quignard, As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia (trad. Ernesto Sampaio), Livros Cotovia.

* Spurius Possidius Barca, o segundo marido de Apronenia Avitia, encontrava-se acamado devido, possivelmente, a uma intoxicação alimentar.
** Eu (Apronenia Avitia). Apronenia Avitia, uma patrícia romana do final do século IV, escreveu uma espécie de diário (ou de agenda) sobre umas tabuinhas de buxo. Aí anotou contas, encomendas, perfumes, peças raras, preferências e aversões quanto a cheiros, comidas e prazeres, sonhos, pesadelos, reflexões, ditos jocosos ou não, recordações, etc.

22/06/08

As Realidades (Fábula)

Era uma vez uma realidade
com as suas ovelhas de lã real
a filha do rei passou por ali
E as ovelhas baliam que linda que está
a re a re a realidade.

Na noite era uma vez
uma realidade que sofria de insónia
Então chegava a madrinha fada
e realmente levava-a pela mão
a re a re a realidade.

No trono havia uma vez,
um velho rei que se aborrecia
e pela noite perdia o seu manto
e por rainha puseram-lhe ao lado
a re a re a realidade.

CAUDA: dade dade a reali
dade dade a realidade
A real a real
idade idade dá a reali
ali
a re a realidade
era uma vez a REALIDADE.


Louis Aragon


Franco Fortini, “o movimento surrealista”, trad. António Ramos Rosa, presença

02/06/08

vento e contravento, contravento e vento

"Mas a cena das duas pessoas a entrar no táxi e a satisfação que me deu fizera-me também perguntar se há dois sexos no espírito que correspondam aos dois sexos no corpo e se eles também necessitam de estar unidos para alcançarem uma plena satisfação e felicidade. E comecei, diletantemente, a esboçar a teoria de que em cada um de nós actuam duas forças, uma masculina e uma feminina; e no espírito do homem predomine o homem sobre a mulher, e no da mulher predomine a mulher sobre o homem. O estado normal e confortável da existência é aquele em que os dois vivem juntos em harmonia, cooperando espiritualmente. Se um é homem, a sua parte feminina interior deve ter um significado; e uma mulher deve também ter uma relação com o homem que existe nela. Coleridge talvez se referisse a isto quando disse que um grande espírito é andrógino. É no momento em que toda esta fusão ocorre que o espírito é totalmente fecundado e utiliza todas as suas faculdades. Talvez um espírito que seja puramente masculino não possa criar mais do que cria um espírito puramente feminino, pensei."
Virginia Woolf, "um quarto só para si", trad. Maria de Lourdes Guimarães, relógio d'água

motivo

"- ...por que é que tu dormiste com Pola?
- Por uma questão de perfumes - disse Oliveira, sentando-se no parapeito à beira da água. - Pareceu-me que cheirava ao cantar dos cantares, a canela, a mirra, essas coisas. E além disso era verdade."

Julio Cortázar, "Rauyela", trad. Alberto Simões, cavalo de ferro

28/05/08

Não compreendem nada

Entrei no barbeiro e disse - calmamente:
«Tenha a amabilidade, penteie-me as orelhas.»
Num repente o barbeiro pelado virou conífera eriçada,
a sua cara alongou-se como uma pêra.
«Ele é tolo!
Anormal!» -
e as palavras foram-se aos saltos.
O insulto ressaltava de ganido em ganido,
e lon-on-ongamente
uma espécie de cabeça fez troça,
extraída da multidão, como um velho rabanete.

Vladimir Maiakovski, "33 poesias", trad. Adolfo Luxúria Canibal, quasi

25/05/08

Da floresta...

"O meu nome é Marie e venho do Emental [...]. Trabalhei muito, porque sou forte. Tudo o que via e ouvia depressa me pareceu frio, estranho e pequeno. Nunca compreendi aquilo a que os outros chamam vida. As pequenas lágrimas e as pequenas risadas dos outros pareciam-me cada vez mais e mais estranhas, mais e mais incompreensíveis. Nao participava nas suas alegrias precipitadas, não percebia os seus sofrimentos. Sempre fui calma e contida. Nunca me senti assustada ou inquieta. Nunca tive medo de nada. As pessoas começaram a evitar-me como se eu fosse um fantasma; mas eu nunca perdi a calma, e nunca a perderei. Aqui na floresta sinto-me bem. Não gosto de pessoas. [...] Nunca quis ferir ninguém com a minha maneira de ser. Nasci assim, mas as pessoas julgam sempre que somos o que somos por intenção nossa. Mas isso não me inquieta muito, e hoje, que estás comigo, não me inquieta mesmo nada. És bom [...] e confias em mim. És tranquilo e não tens medo de mim."

Robert Walser, Histórias de amor, Relógio d' Água (Trad. Isabel Castro Silva)

10/05/08

Fatalidade

Francisco de Goya y Lucientes, Perro semihundido

Esta pintura decorava uma das paredes da casa de Goya (conhecida como "La quinta del sordo"). A cabeça de um cão surge no meio de uma mancha escura e olha para algo ou alguém que está fora da composição. É considerada uma das mais enigmáticas das "Pinturas Negras".


Por que escrevo?

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só queria ter o que eu tivesse sido e não fui.
Clarice Lispector, A Hora da Estrela, Relógio D'Água

03/05/08

27/04/08

imagine otherwise

(fotograma de "branca de neve" de João César Monteiro)



25/04/08

the great Picasso

(na foto: Françoise Gilot e Pablo Picasso)
-
-
"then wear the golden hat, if that will move her;
if you can bounce high, bounce for her too,
till she cry "lover, gold-hatted, high-bouncing lover,
i must have you!"
-
Thomas Parke D'Invilliers

vara verde com olhos

"Não sou um homem moral (embora tente manter a minha consciência em equilíbrio) nem um sábio; não sou nem um esteta nem um filósofo. Sou apenas um homem nervoso, por força das circunstâncias e dos meus próprios actos; mas sou observador. Como disse o meu querido Akuyagawa Ruymosuke, eu não tenho princípios; só tenho nervos."

Joseph Brodsky, "marca d'água", trad. Ana Luísa Faria, d. quixote

19/04/08

nouvelle vague - dance with me

Da imperfeição

“Era dia de orquestra. A orquestra vinha duas vezes por semana de uma praia vizinha. Os músicos eram magros e novos e tinham smokings velhos, ligeiramente esverdeados pelo uso e pela humidade das invernias marítimas. Eram músicos falhados: sem grande arte, com pouco dinheiro e sem fama. Deviam ser resignados ou revoltados. Espero que fossem revoltados: é menos triste. Um homem revoltado, mesmo ingloriamente, nunca está completamente vencido. Mas a resignação passiva, a resignação por ensurdecimento progressivo do ser, é o falhar completo e sem remédio. Mas os revoltados, mesmo aqueles a quem tudo - a luz do candeeiro e a luz da Primavera - dói como uma faca, aqueles que se cortam no ar e nos seus próprios gestos, são a honra da condição humana. Eles são aqueles que não aceitaram a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombras e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir.”

Sophia de Mello Breyner Andresen, PRAIA, in Contos Exemplares, figueirinhas, 2006

12/04/08

Duas formas de dizer

"Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalo de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim – exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor...
Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más - boas ou más, que a gente nunca sabe com qual é que vai para o Diabo.
Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.
Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. [...] Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte [...].
Porque só há duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.
Tudo o mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes. "

Álvaro de Campos, Aviso por causa da moral *
in Fernando Pessoa, Aviso por causa da moral e outros textos de intervenção de Álvaro de Campos, Editorial Nova Ática
* Manifesto distribuído por ocasião de uma exigência feita por estudantes universitários de Lisboa no sentido de serem apreendidas as Canções de António Botto.

09/04/08

"a ternura súbita"


"David olha para Karin e diz: não pude, não soube manifestar a ternura, tudo isso que é feito de tacto e intimidade, a única coisa que conta, a única coisa que alivia da angústia e do ódio. A única coisa que suaviza o facto de estarmos neste mundo."

Ingmar Bergman, "Dependência", trad. Armando Silva Carvalho, assírio & alvim

bula livresca

"O traço definitivo de todo o poeta é sempre o espírito com que observa a Natureza e a Humanidade, o temperamento a partir do qual contempla a sua matéria. Com que têmpera e com que fé se comunicam estas coisas? A que época se molda o canto? Quais são as ferramentas do poeta, o seu engenho peculiar, os seus matizes? Em tais perguntas está sem dúvida contido o valor último daqueles que se expressaram artisticamente, tanto no passado – os estetas gregos, Shakespeare – como nos nossos dias Tennyson, Victor Hugo, Carlyle, Emerson. Digo que o melhor serviço que um poema ou um escritor qualquer pode prestar ao leitor não é satisfazer o seu intelecto, nem oferecer-lhe algo interessante e refinado, nem pintar para ele grandes paixões, indivíduos ou acontecimentos, mas inculcar-lhe vigorosa e limpa humanidade, religiosidade, dar-lhe, como possessão e hábito central, um bom coração. O mundo culto parece ter incrementado o seu tédio e fastio ao longo das épocas, trazendo essa herança para a descarregar sobre nós, Por sorte, há ainda na raça um fundo inesgotável de alegria, ao qual se pode recorrer sempre e no qual sempre se pode confiar."


Walt Whitman, "Folhas de Erva", trad. José Agostinho Baptista, assírio & alvim

30/03/08

palavra com pólen*

"Pensando bem, também nós, seres humanos, somos em geral autênticas sinfonias de cheiros: cheiramos a pó de arroz, a perfume, a sabão para o rabo, a urina, a sexo, a suor, a pomada, a pornografia, a comida. É certo que, de um modo geral, a maioria de nós só cheira a gente, mas entre esses há os que cheiram a confiança, enquanto outros exalam ameaça."

Ingmar Bergman, "Lanterna Mágica", trad. Alexandre Pastor, caravela

*notazinha dispensável: este excerto esteve em risco de não ser transcrito devido ao nome da editora. foi a custo que o escrevi, precavendo-me dos prováveis espirros com uma mola a apertar-me as fossas nasais.
não que se perdesse grande coisa. ao invés, não que se ganhe alguma coisa. fica assim patente a hesitação do modesto e ridículo transcritor. dita a nota, passe-se ao largo da explicação sobre a dificuldade da escrita de tal palavra. tu lá a entenderás, "pois sim"?

discurso de Thomas Bernhard

Senhor Ministro

Dogníssima assistência

Não há nada a exaltar, nada a condenar, nada a acusar, mas há muitas coisas risíveis, tudo é risível quando se pensa na morte.
Atravessa-se a vida, recebem-se impressões, não se recebem impressões, atravessa-se a cena, tudo é intercambiável, recebe-se uma formação mais ou menos boa no armazém de acessórios: grande erro! Percebe-se: um povo que não suspeita de nada, um país formoso - o dos pais mortos ou conscienciosamente sem consciência, dos homens com a simplicidade e a baixeza, a pobreza das suas necessidades.
Tudo é pré-história altamente filosófica e insuportável.
Os séculos são pobres de espírito, o demoníaco em nós é a prisão perpétua do país dos pais onde as componentes idiotia e brutalidade mais intransigente se tornaram quotidiana necessidade. O estado é uma estrutura permanentemente condenada ao fracasso, o povo uma estrutura sempre condenada à infância e à fraqueza de espírito. A vida é o desespero em que se apoiam as filosofias, em que tudo, finalmente, está prometido à demência.
Somos austríacos, somos apáticos, somos a vida como indiferença, vulgarmente compartilhada, perante a vida; somos no processo da natureza, a loucura das grandezas, o sentido da loucura das grandezas como futuro.
Não há nada a dizer, a não ser que somos lamentáveis, sucumbimos por imaginação a uma espécie de monotonia filosófica-económica-mecânica.
Instrumentos da decadência, criaturas da agonia, tudo se torna claro para nós, não compreendemos nada. Povoamos um traumatismo, temos medo, temos todo o direito a ter medo, e em última análise avistamos já, por muito indiferente que as suas formas nos apareçam, os gigantes da angústia.
Aquilo que pensamos já foi pensado, o que sentimos é caótico, o que somos é obscuro.
Não há que ter vergonha: não somos nada e só merecemos o caos.
Muito obrigado.

Thomas Bernhard, "Trevas", trad. Ernesto Sampaio, Hiena

26/03/08

Bernhard numa das suas pessoas ou o falajar de um exagerado lúcido

"Cortar as orelhas a todas as mulheres grávidas seria uma boa ideia. Eu disse isso? Bem, disse-o porque as pessoas, quando julgam que põem crianças no mundo, cometem um grande erro. Engendram um merceeiro ou um criminoso de guerra todo suado, espantoso, pançudo, e é isto que põem no mundo, não crianças. Dizem que vão ter um bébé, mas na realidade o que vão ter é um octogenário que se mija e baba todo, cheira mal, é cego e a quem a gota não deixa dar um passo. Põem no mundo desgraçados, mas a esses não os vêem, para que a natureza possa perpetuar-se, e a mesma estrumeira prossiga até ao infinito."

Thomas Bernhard, "Trevas", trad. Ernesto Sampaio, Hiena

Gritar



"O panarício produz um sofrimento atroz. Mas o que mais me fazia sofrer era não poder gritar. Pois eu estava num hotel. A noite acabava de descer, e o meu quarto ficava entalado entre outros dois onde pessoas dormiam.
Então, comecei a tirar do crânio grandes tambores, cobres, e um instrumento que ressoava mais que um órgão. E aproveitando a força prodigiosa que a febre me dava, organizei uma orquestra ensurdecedora. Tremia tudo com as vibrações.
Depois, tendo enfim a certeza de que naquele tumulto a minha voz não se ouviria, pus-me a urrar, a urrar horas a fio, e consegui a pouco e pouco aliviar-me."

Henri Michaux, "As Minhas Propriedades", trad. José Carlos González, Fenda

13/03/08

Sem título

Grete Stern, Sem título, 1949

01/03/08

Dualidades

" [...] Fá-la tímida e má o ter de viver duas vidas, uma de imaginação, outra de realidade. Por isso tem o olhar desvairado para dentro, de quem segue um sonho e anda neste mundo por acaso."

Raul Brandão, A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore, Relógio D’ Água, 2005

Words you used to say - Dean & Britta

pirilampos

"Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos. (...) São a vida e quase toda a nossa vida - a razão e a essência desta barafunda."

Raul Brandão, "Húmus"

23/02/08

Breve Encontro

Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas, Caminho

da elasticidade

"Há em certas palavras que habitualmente empregamos uma mola escondida que de repente as abre até ao fundo, no-las explica na sua intimidade excepcional: depois a palavra retrai-se, retoma a sua forma banal e circula insignificante, desgastada pelo hábito e pelo maquinal."

Alphonse Daudet, "Sapho", trad. Miguel Serras Pereira, d. quixote

Enquanto Longe Divagas

I
Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
- Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
- Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombas
- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba

II
O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso

III
Pois no ar estremece tua alegria
- Tua jovem riqueza de arbusto -
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso

Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas, Caminho

10/02/08

sentença


"Se o fósforo vos treme quando dais lume a uma mulher, estais perdidos."

Ramón Gómez de la Serna, "greguerías", trad. Jorge Silva Melo, assírio & alvim

08/02/08

Hi!


<

Estátua

Nas suas mãos a voz do mar dormia
Nos seus cabelos o vento se esculpia

A luz rolava entre os seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boiava o rasto branco dos navios

Sophia de Mello Breyner Andresen, No Tempo Dividido, Caminho

Tarde colorida

Foto encontrada algures por aqui

estado de necessidade

"Arranjou outro ofício: passava para a Outra Banda as mulheres que vêm ao Porto com as suas canastras e que depois, no regresso, embarcam na lingueta de Lordelo. A passagem nesse tempo custava trinta réis, o que, evidentemente, não lhe chegava para beber à sua medida. Puxou pela imaginação - e abriu no fundo do barco um furo que tapava com uma rolha.
- Embarquem, meninas! Embarquem! - dizia o rapaz que o ajudava chamando a freguesia. Embarcavam as mulheres aos ranchos e , depois de tudo arrumado, toca a remar. Meio do rio - Alto! - dizia ele ao rapaz. E o rapaz parava. E ele baixava-se e tirava a rolha. E o esguicho repentino de água enchia de terror o mulherio, que se punha de pé aos gritos.
- Não se mexam! Agora quem quiser chegar à Outra Banda tem de dar mais um pataco!"


Raul Brandão, "os pescadores"

06/02/08

o respeitinho não é mais bonito do que isto

"Eis o que Gogol escreveu ao crítico Pogodin quando a mulher deste morreu e o homem estava louco de dor: «Jesus Cristo ajudá-lo-á a ser um cavalheiro, que não é nem por educação nem por inclinação, é ela que fala pela minha voz», uma carta absolutamente única na correspondência de pêsames."

Vladimir Nabokov, "Nikolai Gogol", trad. Carlos Leite, assírio & alvim

O estrangeiro

-Quem é que tu amas mais, homem enigmático, diz: o teu pai, a tua mãe, a tua irmã ou o teu irmão?
-Eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
-Os teus amigos?
-Usas uma palavra cujo sentido me é, até hoje, desconhecido.
-A tua pátria?
-Ignoro em que latitude fica.
-A beleza?
-Amá-la-ia de boa vontade, deusa e imortal.
-O ouro?
-Odeio-o como vós odiais a Deus.
-Bom, o que é que tu amas, então, extraordinário estrangeiro?
-Eu amo as nuvens...as nuvens que passam...além...além...as maravilhosas nuvens!


Charles Baudelaire, "o spleen de Paris", trad. Jorge Fazenda Lourenço, relógio d'água