18/04/09
Olha. A lua e as folhas escuras.
- Que disseste?
- Não disse nada.
- Não disseste nada. Não. Mas voltaste ao mesmo.
- Ao mesmo? – disse Mark.
- Voltaste ao mesmo.
- São quatro horas. Estou cansado.
- O que fazes quando estás cansado, vais-te deitar?
- Exacto.
- Dormes como uma pedra.
- Claro.
- Que fazes quando acordas?
- Passo o dia a andar.
- Olhas para onde vais?
- Vou onde for.
- Gostava de te perguntar uma coisa – disse Len.
- Sem dúvida.
- Estás preparado para responder a uma pergunta?
- Não.
- Mas dizes que não fazes perguntas. Se não respondes e não perguntas, que é que fazes?
- Passo o dia a andar.
- E dormes como uma pedra.
- Exacto.
- Que fazes durante o dia quando não estás a andar?
- É essa a pergunta?
- Hã?
- Que pergunta?
- Continua.
- Não é a pergunta que te ia fazer.
- E qual é?
- É outra coisa.
- É tudo outra coisa.
- Vá, deixa-te disso.
- Está bem. Continua – disse Mark.
Len levantou-se.
- Que queres dizer com continua? – disse ele. – Fiz-te uma pergunta e tu não respondeste.
- E qual era a pergunta?
- O que fazes durante o dia quando não estás a andar?
- Descanso.
- Onde é que encontras sítio para descansar?
- Aqui e ali.
- Por mútuo consentimento?
- Invariavelmente.
- Mas não és exigente?
- Sou, sou exigente.
##
- Diz-me, cá.
- Sim?
- És capaz de correr na neve sem deixar pegadas?
- Acho que sim.
- Deves ser capaz disso, eu sei.
- Acho que conseguia.
- Tens a certeza?
- Achas que não conseguia?
- Acho que conseguias.
- Desde o princípio que o sabias.
- Soube-o desde o princípio – disse ele. – Está aí nos teus olhos.
- Sempre aí esteve?
- Sempre. E no teu corpo.
- Esteve sempre no meu corpo?
- Sim, sempre.
- No teu corpo também - disse ela.
- A sério?
- Sim.
- O teu corpo – disse ele. – Sempre esteve em todo o teu corpo.
- Sempre.
- Nunca vi as tuas pernas, acima do joelho.
- Pois não.
- Levanta a saia.
- Hum?
- Levanta a saia.
- Assim?
- Sim. Continua.
- Assim?
- Deixa-a.
- Assim?
Harold Pinter, Os anões (trad. José Lima), Dom Quixote
02/04/09
abre as asas e fala...

Bons-dias dormi todo o Inverno e agora desperto
Fala
Uma piroga desliza em direcção à luz
Uma palavra veloz avança a toda a vela
O dia tem forma de rio
Em suas represas brilham as plumas de teus cantos
Doçura da água na erva adormecida
Água clara vogais para beber
Vogais para adornar uma fronte uns tornozelos
Fala
Atinge o cume dum momento de júbilo
E logo abre as asas e fala sem cessar
Passa um rosto esquecido
Passas tu própria com teu andar de vento num campo de milho
A infância com suas flechas e seu ídolo e sua figueira
Desata as amarras e passa com a torre e o jardim
Passa o futuro e o passado
Horas já vividas e horas por viver
Passam relâmpagos que levam no bico pedaços de tempo ainda vivos
E escrevem teu nome nas costas nuas do espelho!
Fala
Molha os lábios na água que da pedra inesgotavelmente brota
Submerge teus brancos braços na água grávida de profecias iminentes
Octavio Paz, Antologia Poética, in Manancial (org. e trad. Luís Pignatelli), Publicações Dom Quixote
08/03/09
partir est mourir un peu
Quando estás longe, continuas presente em mim. É uma presença que reveste as formas mais diversas: imagens incontáveis, passagens de livros, significações, coisas familiares, marcas na terra; mas o conjunto de tudo isso fica difuso pela realidade da tua ausência. É como se o teu ser se transformasse em lugar, os contornos do teu corpo em horizontes. Vivi portanto em ti como se vivesse num país. Tu existes em todo o lado. Nesse país, contudo, nunca te poderei encontrar face a face.
Partir est mourir un peu. Era muito novo quando ouvi esta frase pela primeira vez e logo percebi que ela exprimia uma verdade que eu já sentia. Recordo-a agora, porque a experiência de viver em ti como num país onde é impossível encontrarmo-nos face a face parece-se com a experiência de viver com a recordação dos mortos. O que eu não sabia quando era novo é que nada elimina o passado: o passado vai crescendo gradualmente à nossa volta como placenta da morte.
No país que tu és conheço os teus gestos, as entoações da tua voz, a forma de todas as partes do teu corpo. Fisicamente: não és menos real mas és sem dúvida menos livre.
O que muda quando estás presente em carne e osso, é o facto de te tornares imprevisível. Cada gesto que faças é-me desconhecido. Sigo-te. Tu ages. E no que fazes, vejo-me de novo enamorado."
John Berger, "e os nossos rostos, meu amor, fugazes como fotografias", quasi
24/02/09
El hombre imaginario
vive en una mansión imaginaria
rodeada de árboles imaginarios
a la orilla de un río imaginario.
De los muros que son imaginarios
penden antiguos cuadros imaginarios
irreparables grietas imaginarias
que representan hechos imaginarios
ocurridos en mundos imaginarios
en lugares y tiempos imaginarios.
Todas las tardes imaginarias
sube las escaleras imaginarias
y se asoma al balcón imaginario
a mirar el paisaje imaginario
que consiste en un valle imaginario
circundado de cerros imaginarios.
Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario.
Y en las noches de luna imaginaria
sueña con la mujer imaginaria
que le brindó su amor imaginario
vuelve a sentir ese mismo dolor
ese mismo placer imaginario
y vuelve a palpitar
el corazón del hombre imaginario.
Nicanor Parra
22/02/09
Não sei nada
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soletrar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora “pássaro” seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei.”
Ruy Belo, "todos os poemas - vol. I", Assírio & Alvim
20/02/09
Arcos de luar
“Jogo infantil. Água de madeira. Princesas a fiar no jardim, raios de luar.”
“O meu único inimigo, provocador e brigão, era o vento. Quase todas as noites, antes de entrar no meu quarto, deixava-o silvar alegremente abraçado a um poste da rua, ou entretido com os papéis que pastavam pela calçada. Mas, mal eu me despia, e a cadeira complacente sacudia o pó e abria os braços para me receber, o vento começava a bater violentamente contra a janela, tentando insinuar-se por alguma fenda, ou abri-la à força; a minha janela, porém, cruzava bem os seus dois rudes e únicos dedos, e mofava do vento.”
“[…] É um vulgar tiquetaque que ora saltita, ora pergunta, ora se concentra esgrimindo um livro, ora derruba um carro eléctrico que segue à cabeça da multidão. Este tiquetaque não tem a ver com as mortes nem com a história. Feitas as contas, vai ao que os outros vão.”
01/02/09
Quando a criança era criança
Quando a criança era criança
andava com os braços a baloiçar.
Queria que o ribeiro fosse um rio,
que o rio fosse uma corrente,
e que esta poça fosse o mar.
Quando a criança era criança,
não sabia que era criança.
tudo era cheio de vida
e toda a vida era uma.
Quando a criança era criança,
não tinha opinião de nada.
Não tinha hábitos, ficava muitas vezes
sentada de pernas cruzadas,
fugia, tinha um remoinho no cabelo
e não fazia uma cara sorridente
quando tirava fotografias.
Excerto do poema do Peter Handke, dito no início do filme "As Asas do Desejo" ("Der Himmel Über Berlin", 1987), Wim Wenders.
23/01/09
O lirismo do alfabeto
atacam-me, cegas, de noite,
invadem-me:
cercam-me durante o dia,
tomando-me de assalto os olhos,
arrancando-me o sono e projectando-o
da sombra para a luz,
da luz para a sombra, inexoravelmente.
Guerra sem fim e sem quartel,
mortal e alegre a cada instante.
Rimbaud deu cores às vogais,
mas cada letra - todo o alfabeto -
se expande numa cor, torna visível,
até quase pode tocar-se, o seu som.
Eis aqui a armada invicta,
as guardas avançadas da palavra,
torres maiúsculas,
fortes capitães, que em batalha contínua, entrelaçados,
provocam desde há séculos todas as comoções,
ligeiras ou profundas,
do ser, do pensamento.
Pintura, poesia, caligrafia e música
- folhas, estrelas, flores - ei-las aqui, num só ramo.
O alfabeto é tudo.
Na caligrafia, exaltada, ressoa cada coisa.
Dum extremo ao outro,
percorre o mundo o lirismo do alfabeto. Escutai.
Todas as letras cantam nas antenas.
Rafael Alberti (Trad. Albano Martins)
19/01/09
náufragos exaustos
01/01/09
Vais à água?
A tua casa, sendo o local onde lês, pode dizer-nos que lugar ocupam os livros na tua vida, se são uma defesa que pões à frente para manteres afastado o mundo exterior, um sonho em que mergulhas como numa droga, ou se são pontes que lanças para o exterior, para o mundo que te interessaa tanto que queres dilatar e multiplicar as suas dimensões através dos livros.
24/12/08
21/12/08
o toque da luz
Clarice Lispector, "uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", relógio d'água
05/12/08
01/12/08
E tu poderias?
um mapa do quotidiano.
Mostrei num prato de geleia
as oblíquas maçãs do rosto do oceano.
Nas escamas de um peixe de ferro branco
li o apelo de lábios novos.
E tu,
poderias tu
tocar um nocturno
com a flauta das goteiras?
Vladimir Maiakovski, 33 Poesias (Trad. Adolfo Luxúria Canibal), edições quasi
28/11/08
25/11/08
respirar e ver
Cesare Pavese, vocação, in férias de agosto (Trad. Ana Hatherly), quasi
23/11/08
Transparências
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Posso decorar uma página inteira da lista telefónica em três minutos exactos, mas sou incapaz de me lembrar do meu próprio número de telefone. Posso compor páginas de poesia tão estranha e nova como tu, ou como qualquer coisa que alguém possa escrever daqui a trezentos anos, mas nunca publiquei um verso sequer […] Posso levitar uma polegada e manter-me assim por dez segundos, mas não consigo trepar a uma macieira. Possuo uma licenciatura em Filosofia, mas não aprendi alemão. Apaixonei-me por ti, mas não farei nada quanto a isso. Em resumo, sou um génio absoluto.
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Se, como acontecia às vezes, nas horas mais cinzentas, sem a mais remota intenção sexual, ele interrompia a sua leitura, para ir até ao quarto dela avançando sobre os joelhos e os cotovelos, como uma preguiça extática, indescritível, inarbórea, uivando a sua adoração, a fria Armande dir-lhe-ia que se levantasse e deixasse de se armar em parvo. Os nomes mais ardentes que conseguia imaginar – minha princesa, minha querida, meu anjo, meu bichinho, minha fera felina – só a exasperavam. “Mas por que razão”- perguntava ela, “não consegues falar comigo de uma forma humana, natural, como um cavalheiro fala com uma senhora, por que tens de inventar estas palhaçadas, por que não consegues ser sério e simples e credível?”
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Viu um 313 muito preto sobre uma porta muito branca e lembrou-se instantaneamente de como tinha dito a Armande (que lhe prometera visitá-lo e não quis que a anunciassem): "Mnemonicamente deve ser imaginado como três homenzinhos de perfil, um preso que passa com um guarda que vai à frente e outro guarda atrás." Armande replicara que isso era muito complicado para ela e que o anotaria simplesemente na agendinha que trazia na carteira.
Vladimir Nabokov, Transparências (Trad. Margarida Santiago), Teorema22/11/08
porcos-espinhos prateados
Diante da maior parte das pessoas, da maior parte dos lugares, da maior parte das situações, da maior parte das palavras, o ser de Djuna, de dezasseis anos, fechava-se hermeticamente no silêncio. As sentinelas eriçavam-se: vem aí alguém! E todas as passagens que conduziam ao seu interior se fechavam.
Hoje, enquanto mulher adulta, conseguia perceber que essas sentinelas não se tinham limitado a defendê-la – tinham construído verdadeiros fortes sob essa máscara de branda timidez, fortes com buracos camuflados que escondiam armas construídas pelo medo.
Anaïs Nin, os Filhos do Albatroz (Trad. Tânia Ganho), Bico de Pena
12/11/08
a lua era feita de açúcar
Al Berto, O Medo, Assírio & Alvim
10/11/08
Lá e Não-aqui e Às-vezes
nos são oferecidas. Quando
para ti olhei ‒ foi quando? ‒ estava
lá fora nesses
outros mundos.
Oh, estes caminhos, galácticos,
Oh, esta hora que nos
trouxe as noites lançando-as
na carga dos nossos nomes. Não
é verdade, bem o sei,
que tenhamos vivido, passou,
cego, apenas um sopro entre
Lá e Não-aqui e Às-vezes,
como um cometa, um olho passava vibrante
em busca de fogos extintos, nos desfiladeiros,
no lugar do lume a apagar-se estava
o tempo num esplendor de tetas,
e por ele acima e abaixo já
crescia e passava o que
é ou foi ou há-de ser ‒,
eu sei,
eu sei e tu sabes, nós sabíamos,
não sabíamos, nós
afinal estávamos aqui e não lá
e às vezes, quando
entre nós só havia o Nada, o nosso
encontro era perfeito.
Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde (Trad. João Barrento e Y.K. Centeno), Livros Cotovia
30/10/08
Virá a morte e terá os teus olhos
esta morte que nos acompanha
de manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês em cada manhã
quando sobre ti só te inclinas
ao espelho. Ó querida esperança,
nesse dia saberemos também nós
que és a vida e és o nada.
Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como largar um vício,
como ver ressurgir
no espelho um rosto morto,
como escutar lábios fechados.
Desceremos o remoinho mudos.
22 de Março de 1950
Cesare Pavese, "Trabalhar Cansa", trad. Carlos Leite, Cotovia
18/10/08
O vento levar-nos-á
Na minha noite, infelizmente tão curta
o vento está prestes a encontrar-se com as folhas
das árvores
na minha noite, tão breve, e plena de uma angústia devastadora
ouve
ouves o sussurro das sombras?
esta felicidade é-me desconhecida
estou habituada ao desespero.
Ouves o sussurro das sombras?
ali, na noite, algo acontece
a lua é vermelha e ansiosa
e sobre este telhado
que a qualquer momento pode ruir
as nuvens, qual procissão de carpideiras
aguardam o nascimento da chuva.
Um segundo
depois nada
atrás desta janela a noite treme
e a terra pára de girar
atrás desta janela
qualquer coisa desconhecida inquieta-se comigo e contigo
Tu, verde dos pés à cabeça
coloca as tuas mãos, essas memórias
escaldantes,
nas minhas mãos amorosas
entrega os teus lábios ao toque
dos meus lábios amorosos
repletos do calor da vida
o vento levar-nos-á
o vento levar-nos-á.
Forough Farrokhzad (poema retirado daqui.)
11/10/08
o perfeito pulsar irregular das frases
"O velho dar e receber intergeracional do país de antanho, quando todos sabiam o que tinham a fazer e aceitavam as regras com toda a seriedade, o avançar e recuar aculturante com que todos nós havíamos crescido, a luta ritual pós-imigrante pelo sucesso acabando em algo de patológico no castelo do gentleman farmer, logo aí, do nosso supervulgar Sueco. Um tipo todo arrumadinho como um baralho de cartas e, ao fiam e ao cabo, as coisas a desenrolarem-se de uma maneira totalmente diferente. De modo algum preparado para o que lhe iria cair em cima. Como é que ele alguma vez podia, como toda aquela bondade cuidadosamente calibrada saber que a aposta de viver obedientemente era tão alta? Assume-se a obediência para fazer baixar a aposta. Uma bela vida. Uma bela casa. Dirige o negócio que nem uma maravilha. Gere muito bem a sua velhice. Estava realmente a viver a sua versão do paraíso. É assim que vivem as pessoas de sucesso. São bons cidadãos. Sentem-se com sorte. Sentem-se gratos. Deus sorri-lhes. Quando há problemas, adaptam-se. E de repente tudo muda e torna-se impossível. Já nada sorri a ninguém. E quem é, então, capaz de se adaptar? Aqui temos alguém que não está preparado para suportar uma vida medíocre, quanto mais o impossível! Mas quem é que está preparado para o impossível que vai acontecer? Quem está preparado para a tragédia e para a incompreensão do sofrimento? Ninguém. A tragédia do homem que não está preparado para a tragédia - é esta a tragédia de todos os homens."
Philip Roth, "Pastoral Americana", trad. Maria João Delgado e Luísa Feijó, D. Quixote
colheita de estrelas
Blaise Cendrars, "O Eubage", trad. Aníbal Fernandes, & etc
mmc
«Segundo o seu ponto de vista o que é que encerra uma maior quantidade de ciência: os livros ou o espírito?»
«Uma pergunta muito perspicaz para uma mulher!», pensei para comigo, apoiando-me no ponto de vista tão natural ao homem de que o espírito da mulher é essencialmente frívolo. E pensei um minuto antes de responder. «Se se refere a espíritos vivos, não julgo possível chegar a uma conclusão. Há tanta ciência escrita que ainda nenhum ser vivo a leu; e há tanta ciência devidamente estudada que ainda não foi escrita. Mas, se se refere a toda a raça humana, então julgo que os espíritos têm essa ciência, tudo o que está registado em livros, deve ter estado noutros tempos em qualquer espírito, compreende?»
«Não é o que acontece com uma das regras algébricas?», quis ela saber. «A álgebra também?», pensei com um espanto crescente. «Quero dizer, se considerarmos os pensamentos como factores, não podemos dizer que o menor múltiplo comum de todos os espíritos contém o que é comum a todos os livros, e não o contrário?»
«De certo que podemos!”, respondi deliciado com a explicação. «E que grande coisa seria», acrescentei num devaneio em voz alta, «se ao menos pudéssemos aplicar essa regra aos livros! Sabe que ao acharmos o menor múltiplo comum excluímos qualquer número onde quer que ele apareça excepto na expressão em que ele está elevado à sua mais alta potência. Deste modo teríamos de apagar todo o pensamento registado, excepto na frase onde está expresso com maior intensidade.»
Ela riu muito divertida. «Receio que alguns livros ficassem reduzidos a papel em branco!», disse.
«Ficariam. O espólio da maioria das bibliotecas ficaria extremamente reduzido. Mas imagine o que ganharia em qualidade!»
«Quando é que isso acontecerá?», perguntou impaciente. «Se isso ainda acontecer no meu tempo, julgo que vou deixar de ler, e esperar por isso!»
«Bem, talvez daqui a uns mil anos, pouco mais ou menos…»
Lewis Carrol, "Sylvie e Bruno", trad. Maria de Lourdes Guimarães, Relógio D'Água
06/10/08
Por certo a Minerva ao seu serviço não usava capacete e era canhota
Alguns detritos periféricos
O Iph adoptou alguns detritos periféricos
De visões místicas; e dava instruções
(Os óculos ambarinos para o eclipse da vida) -:
Não se deve entrar em pânico quando se passa a fantasma:
Deslizar, deslizar, escolher uma surdez branda e aportar,
Encontrar corpos sólidos e passar através deles
Ou deixar alguém circular através de nós.
Como localizar na noite, de um olhar,
Terra, a Bela, orbículo de jaspe.
Como não enlouquecer no espaço espiralado.
Precauções a tomar em caso
De reincarnação disforme: que fazer
Se subitamente se descobrir que se é
Um jovem e vulnerável sapo
Espapaçado no meio de uma estrada em movimento.
Ou um filhote de urso sob um pinheiro a arder
Ou uma traça do papel num evangelho revivido.
Vladimir Nabokov, Fogo Pálido (Trad. Telma Costa), teorema
29/09/08
21/09/08
Avec le temps
tudo passa
do possível ao improvável
Com o tempo
deshabitamos
as condições do corpo
a sua assinatura
Com o tempo
descobrimos o sentido fractal -
na face do Banquete
as coisas conhecidas
tornam-se sussurro
O futuro é um despiste amargo
um vértice truncado
que se esfuma
Divorciados do acaso
afastamo-nos calados
No deserto
surdamente gritamos
Ana Hatherly, Itinerários, quasi
17/09/08
SubLinhAdOs*
##
No século XVIII, embora os quartos continuassem a não ser espaços de reclusão, ficar na cama a ler – em Paris, pelo menos – tornara-se suficientemente comum para justificar que São João Baptista de la Salle, o pedagogo e filantropo francês canonizado em 1900, chamasse a atenção para os perigos pecaminosos deste passatempo ocioso. “É completamente indecente e impróprio tagarelar, coscuvilhar ou foliar na cama” escreveu em As regras do Decoro na Civilidade Cristã, publicado em 1703. “Não imiteis certas pessoas que se entregam à leitura e outras actividades; não permaneçais na cama, a não ser que seja para dormir, e a vossa virtude muito aproveitará.”
* Falta a aba do chapéu do A, pois sim?
16/09/08
na medida em que tudo pode ser simbólico
(...)
O simbolismo da folha do acanto, muito usada nas decorações antigas e medievais deriva, essencialmente, dos espinhos dessa planta.
Conta certa lenda, narrada por Vitrúvio, que o escultor Calímaco, no final do século V a. c., ao ornamentar um dos capitéis do túmulo de uma menina , se teria inspirado num ramalhete de folhas de acanto. Retém-se dessa lenda o facto de que, pelo menos originalmente e sobretudo na arquitectura funerária, o acanto era usado para indicar que as provações da vida e da morte, simbolizadas pelos espinhos da planta, haviam sido vencidas.
O acanto ornamentava os capitéis coríntios, os carros fúnebres e as vestimentas dos grandes homens, porque os arquitectos, os defuntos e os heróis haviam sido homens que souberam vencer as dificuldades de suas tarefas. Como de tudo que possui espinhos, fez-se igualmente do acanto o símbolo da terra virgem e da própria virgindade, que também significam uma outra espécie de triunfo. Aquele que tiver ornado por essa folha venceu a maldição bíblica: “O solo produzirá para ti espinhos e cardos” (Génesis, 3, 18). No sentido de que a provação vencida se transformou em glória."
Jean Chevalier, «Dicionário de Símbolos», editora José Olympio
respigado daqui
14/09/08
Um pouquinho sublime...
Roberto Bolaño, Os Detectives Selvagens (trad. Miranda das Neves), Teorema
11/09/08
10/09/08
07/09/08
Flor, perfume, relva, céu...
Raymond Guérin, Jaquina (Trad. Luiza Neto Jorge), in A Pele Calejada, Assírio & Alvim
nada passa
Assim vamos persistindo, como barcos contra a corrente, incessantemente levados de volta ao passado."
Scott Fitzgerald, "o grande Gatsby", trad. Fernanda César, Europa-América
Recado
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
Al Berto, "vigílias", Assírio & Alvim
31/08/08
kibbutz... ki-bbu-tz
Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), trad. Alberto Simões, cavalo de ferro
28/08/08
Não importa com quem
Não importa porquê.
Não importa para quê.
Importa que sejas de novo o fruto sadio desta longa demora
com lábios nascentes nos olhos de outrora.
Importa que a nudez volte pura outra vez.
Não importa porquê!
Amélia Vieira, Fim, cavalo de ferro
Encontro
27/08/08
Dignidade profissional
Sei dominar-me.
Não o deixava transparecer, mas estavam em jogo o trabalho de longos anos, o reconhecimento do meu talento, todo o meu futuro.
‒ Sou um artista imitador ‒ disse.
‒ O que é que sabe? ‒ perguntou o director.
‒ Imito o canto dos pássaros.
‒ Infelizmente ‒ fez um gesto de renúncia com a mão ‒, isso já passou de moda.
‒ Como? O arrulhar da rola? O chilrear do milheiro nos caniçais? O gorjeio da codorniz? O grito da gaivota? O cantarolar da cotovia?
‒ Passou ‒ disse o director aborrecido.
Aquilo magoou-me. Mas penso que não o mostrei.
‒ Adeus ‒ disse eu com cortesia, e saí a voar pela janela aberta.
István Örkény, Histórias de 1 minuto, vol. 1 (trad. Piroska Felkai), cavalo de ferro
21/08/08
01/08/08
Peixes prisioneiros
Roberto Arlt, Os sete loucos, (Trad. Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues), cavalo de ferro
29/07/08
frases que trazem quadros ao de cima
"Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito."
Clarice Lispector, "a paixão segundo G.H.", relógio d'água
meter a mão ao bolso do
Thomas Bernhard, "perturbação", relógio d'água
correr lado a lado ao lado do tempo. ultrapassá-lo e ganhar, perdendo.
Clarice Lispector, "a paixão segundo G.H.", relógio d'água
27/07/08
Tu não te lembras?
‒ Não, foi no ano passado.
‒ Sim, eu bem me lembrava. Foi em Setembro do ano passado, pelo dia vinte e um. Ouve-me, Melitón, não foi a vinte e um de Setembro o dia do tremor de terra?
‒ Foi um pouco antes. Quer-me parecer que foi a dezoito.
‒ Tens razão. Eu por esses dias andava em Tuxcacuesco. Até vi quando se desmoronavam as casas como se fossem feitas de mel, simplesmente, retorciam-se assim, fazendo trejeitos, e vinham as paredes inteiras para o chão. E as pessoas saíam dos escombros todas aterrorizadas, correndo direitinhas para a igreja aos gritos. Mas esperem. Ouve, Melitón, parece-me que em Tuxcacuesco não existe nenhuma igreja. Tu não te lembras?
‒ Não há. Ali não restam senão umas paredes feitas em quatro bocados que dizem que foi a igreja há coisa de duzentos anos; mas ninguém se lembra dela, nem de como era; aquilo mais parece um curral abandonado infestado de figueirinhas.
‒ Dizes bem. Então não foi em Tuxcacuesco que me apanhou o tremor de terra, deve ter sido em El Pochote. Mas El Pochote é um rancho, não é?
Juan Rulfo, O dia do desmoranamento, in A Planície em Chamas (Trad. Ana Santos), cavalo de ferro
22/07/08
A lua
A lua (dizem os ingleses)
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma ideia se perde.
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De sentir e de pensar*
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando.
(a.m. early)
* Var.: De... não sei se é desejar.
19/07/08
SEM TÍTULO E BASTANTE BREVE
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas
quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor
na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde, não sei
onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar
dizem, que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito in-
terrogar-se acerca da melancolia das mãos
esta memória-lâmina incansável
um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangue? e da água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas
amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão
Al Berto, Degredo no Sul, Assírio & Alvim
É noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou,fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
(...)
Carlos Drummond de Andrade
18/07/08
aves combatentes de bochechas vermelhas
No primeiro plano, ao lado dos soldados de bigodaça que constituíam a guarda municipal, estava um jovem szlachcic que vestira uma farda militar e tudo, mas tudo, o que tinha lá em casa para vestir, com excepção de uma camisa rota e de umas botas velhas. Pendiam-lhe do pescoço duas correntes com uma moedinha. Estava com a namorada e, volta e meia, olhava ao redor para que ninguém sujasse o vestido de seda da menina. Explicava-lhe tudo, mas tudo, exaustivamente. “Olhe, alminha – dizia ele –, aqui está o povo que veio ver a execução dos criminosos. E aquele homem que a menina vê ali e que tem nas mãos a acha e outros instrumentos é o carrasco que vai executar os criminosos. Antes, durante o suplício da roda, o criminoso ainda estará vivo, alminha, só morrerá de uma vez quando lhe cortarem a cabeça. Antes disso vai gritar e estrebuchar, mas quando o decapitarem já não poderá gritar, comer ou beber, porque, alminha, já não terá cabeça.” E a menina ouvia tudo com medo e curiosidade.
Nikolai Gógol,Tarás Bulba, in Mírgorod (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra), Assírio & Alvim
17/07/08
papoulas breves
Vincent Van Gogh, Butterflies and Poppies, San Remy, 1890 nem por entre os nossos dedos de areia
sobem-nos vozes calcárias à garganta, estrangulo-me neste
humilde canto, fico atento ao eterno silêncio do teu castelo
às vezes escuto o teu cantar, raramente, é certo… mas quan-
do cantas saem-te nomes puros da boca e sorrisos diáfanos
de cristais
os lábios incendeiam-se com vinho, teu corpo adquire o sa-
bor misterioso das algas
no crepúsculo expande-se o pefume a moreia frita, teu
olhar é o mosto dos nossos desejos
dançamos à roda de um mastro, saia em papel de seda borda-
da com búzios… uma quadra flutua pela noite de nossos cabelos
rodopias, e os teus amores são relembrados pela noite adiante
espalham-se estrelas cadentes, papoulas breves, junco mo-
lhado
e o mar enche-se novamente de pássaros, embarcações se-
melhantes a beijos que nos percorrem de alegria
Al Berto, Degredo no Sul, Assírio & Alvim
27/06/08
Litania
[...] Spurius*, triste, de olhar fixo, com as mãos a tremer, gagueja:
– Houve um tempo em que eu não existia e houve um tempo em que tu não existias. Haverá talvez um tempo em que eu deixe de existir e tu existas, ou talvez um tempo em que tu não existas e eu exista. Serão sem dúvida os tempos mais tristes. Depois haverá um tempo em que ambos já não existiremos e nunca mais voltaremos a existir.
Enquanto ele falava, Spatalé repunha azeite nas candeias. Eu** acariciava-lhe com o dedo as costas da mão, que tremia.
Pascal Quignard, As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia (trad. Ernesto Sampaio), Livros Cotovia.
* Spurius Possidius Barca, o segundo marido de Apronenia Avitia, encontrava-se acamado devido, possivelmente, a uma intoxicação alimentar.
** Eu (Apronenia Avitia). Apronenia Avitia, uma patrícia romana do final do século IV, escreveu uma espécie de diário (ou de agenda) sobre umas tabuinhas de buxo. Aí anotou contas, encomendas, perfumes, peças raras, preferências e aversões quanto a cheiros, comidas e prazeres, sonhos, pesadelos, reflexões, ditos jocosos ou não, recordações, etc.
22/06/08
As Realidades (Fábula)
Era uma vez uma realidade
com as suas ovelhas de lã real
a filha do rei passou por ali
E as ovelhas baliam que linda que está
a re a re a realidade.
Na noite era uma vez
uma realidade que sofria de insónia
Então chegava a madrinha fada
e realmente levava-a pela mão
a re a re a realidade.
No trono havia uma vez,
um velho rei que se aborrecia
e pela noite perdia o seu manto
e por rainha puseram-lhe ao lado
a re a re a realidade.
CAUDA: dade dade a reali
dade dade a realidade
A real a real
idade idade dá a reali
ali
a re a realidade
era uma vez a REALIDADE.
Louis Aragon
Franco Fortini, “o movimento surrealista”, trad. António Ramos Rosa, presença
02/06/08
vento e contravento, contravento e vento
motivo
- Por uma questão de perfumes - disse Oliveira, sentando-se no parapeito à beira da água. - Pareceu-me que cheirava ao cantar dos cantares, a canela, a mirra, essas coisas. E além disso era verdade."
Julio Cortázar, "Rauyela", trad. Alberto Simões, cavalo de ferro
28/05/08
Não compreendem nada
«Tenha a amabilidade, penteie-me as orelhas.»
Num repente o barbeiro pelado virou conífera eriçada,
a sua cara alongou-se como uma pêra.
«Ele é tolo!
Anormal!» -
e as palavras foram-se aos saltos.
O insulto ressaltava de ganido em ganido,
e lon-on-ongamente
uma espécie de cabeça fez troça,
extraída da multidão, como um velho rabanete.
Vladimir Maiakovski, "33 poesias", trad. Adolfo Luxúria Canibal, quasi
25/05/08
Da floresta...
Robert Walser, Histórias de amor, Relógio d' Água (Trad. Isabel Castro Silva)
10/05/08
Fatalidade
Esta pintura decorava uma das paredes da casa de Goya (conhecida como "La quinta del sordo"). A cabeça de um cão surge no meio de uma mancha escura e olha para algo ou alguém que está fora da composição. É considerada uma das mais enigmáticas das "Pinturas Negras".
Por que escrevo?
03/05/08
27/04/08
25/04/08
the great Picasso
if you can bounce high, bounce for her too,
till she cry "lover, gold-hatted, high-bouncing lover,
i must have you!"
vara verde com olhos
Joseph Brodsky, "marca d'água", trad. Ana Luísa Faria, d. quixote
19/04/08
Da imperfeição
Sophia de Mello Breyner Andresen, PRAIA, in Contos Exemplares, figueirinhas, 2006
12/04/08
Duas formas de dizer
Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más - boas ou más, que a gente nunca sabe com qual é que vai para o Diabo.
Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.
Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. [...] Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte [...].
Porque só há duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.
Tudo o mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes. "
09/04/08
"a ternura súbita"

"David olha para Karin e diz: não pude, não soube manifestar a ternura, tudo isso que é feito de tacto e intimidade, a única coisa que conta, a única coisa que alivia da angústia e do ódio. A única coisa que suaviza o facto de estarmos neste mundo."
Ingmar Bergman, "Dependência", trad. Armando Silva Carvalho, assírio & alvim
bula livresca
"O traço definitivo de todo o poeta é sempre o espírito com que observa a Natureza e a Humanidade, o temperamento a partir do qual contempla a sua matéria. Com que têmpera e com que fé se comunicam estas coisas? A que época se molda o canto? Quais são as ferramentas do poeta, o seu engenho peculiar, os seus matizes? Em tais perguntas está sem dúvida contido o valor último daqueles que se expressaram artisticamente, tanto no passado – os estetas gregos, Shakespeare – como nos nossos dias Tennyson, Victor Hugo, Carlyle, Emerson. Digo que o melhor serviço que um poema ou um escritor qualquer pode prestar ao leitor não é satisfazer o seu intelecto, nem oferecer-lhe algo interessante e refinado, nem pintar para ele grandes paixões, indivíduos ou acontecimentos, mas inculcar-lhe vigorosa e limpa humanidade, religiosidade, dar-lhe, como possessão e hábito central, um bom coração. O mundo culto parece ter incrementado o seu tédio e fastio ao longo das épocas, trazendo essa herança para a descarregar sobre nós, Por sorte, há ainda na raça um fundo inesgotável de alegria, ao qual se pode recorrer sempre e no qual sempre se pode confiar."
Walt Whitman, "Folhas de Erva", trad. José Agostinho Baptista, assírio & alvim
30/03/08
palavra com pólen*
Ingmar Bergman, "Lanterna Mágica", trad. Alexandre Pastor, caravela
*notazinha dispensável: este excerto esteve em risco de não ser transcrito devido ao nome da editora. foi a custo que o escrevi, precavendo-me dos prováveis espirros com uma mola a apertar-me as fossas nasais. não que se perdesse grande coisa. ao invés, não que se ganhe alguma coisa. fica assim patente a hesitação do modesto e ridículo transcritor. dita a nota, passe-se ao largo da explicação sobre a dificuldade da escrita de tal palavra. tu lá a entenderás, "pois sim"?
discurso de Thomas Bernhard
Dogníssima assistência
Não há nada a exaltar, nada a condenar, nada a acusar, mas há muitas coisas risíveis, tudo é risível quando se pensa na morte.
Atravessa-se a vida, recebem-se impressões, não se recebem impressões, atravessa-se a cena, tudo é intercambiável, recebe-se uma formação mais ou menos boa no armazém de acessórios: grande erro! Percebe-se: um povo que não suspeita de nada, um país formoso - o dos pais mortos ou conscienciosamente sem consciência, dos homens com a simplicidade e a baixeza, a pobreza das suas necessidades.
Tudo é pré-história altamente filosófica e insuportável.
Os séculos são pobres de espírito, o demoníaco em nós é a prisão perpétua do país dos pais onde as componentes idiotia e brutalidade mais intransigente se tornaram quotidiana necessidade. O estado é uma estrutura permanentemente condenada ao fracasso, o povo uma estrutura sempre condenada à infância e à fraqueza de espírito. A vida é o desespero em que se apoiam as filosofias, em que tudo, finalmente, está prometido à demência.
Somos austríacos, somos apáticos, somos a vida como indiferença, vulgarmente compartilhada, perante a vida; somos no processo da natureza, a loucura das grandezas, o sentido da loucura das grandezas como futuro.
Não há nada a dizer, a não ser que somos lamentáveis, sucumbimos por imaginação a uma espécie de monotonia filosófica-económica-mecânica.
Instrumentos da decadência, criaturas da agonia, tudo se torna claro para nós, não compreendemos nada. Povoamos um traumatismo, temos medo, temos todo o direito a ter medo, e em última análise avistamos já, por muito indiferente que as suas formas nos apareçam, os gigantes da angústia.
Aquilo que pensamos já foi pensado, o que sentimos é caótico, o que somos é obscuro.
Não há que ter vergonha: não somos nada e só merecemos o caos.
Muito obrigado.
Thomas Bernhard, "Trevas", trad. Ernesto Sampaio, Hiena
26/03/08
Bernhard numa das suas pessoas ou o falajar de um exagerado lúcido
Thomas Bernhard, "Trevas", trad. Ernesto Sampaio, Hiena
Gritar

"O panarício produz um sofrimento atroz. Mas o que mais me fazia sofrer era não poder gritar. Pois eu estava num hotel. A noite acabava de descer, e o meu quarto ficava entalado entre outros dois onde pessoas dormiam.
Então, comecei a tirar do crânio grandes tambores, cobres, e um instrumento que ressoava mais que um órgão. E aproveitando a força prodigiosa que a febre me dava, organizei uma orquestra ensurdecedora. Tremia tudo com as vibrações.
Depois, tendo enfim a certeza de que naquele tumulto a minha voz não se ouviria, pus-me a urrar, a urrar horas a fio, e consegui a pouco e pouco aliviar-me."
Henri Michaux, "As Minhas Propriedades", trad. José Carlos González, Fenda
13/03/08
01/03/08
Dualidades
Raul Brandão, A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore, Relógio D’ Água, 2005
pirilampos
Raul Brandão, "Húmus"
23/02/08
Breve Encontro
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida
Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas, Caminho
da elasticidade
Alphonse Daudet, "Sapho", trad. Miguel Serras Pereira, d. quixote
Enquanto Longe Divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
- Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
- Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombas
- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso
- Tua jovem riqueza de arbusto -
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso
Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso
Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas, Caminho
10/02/08
sentença
08/02/08
Estátua
Nos seus cabelos o vento se esculpia
A luz rolava entre os seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boiava o rasto branco dos navios
Sophia de Mello Breyner Andresen, No Tempo Dividido, Caminho
estado de necessidade
- Embarquem, meninas! Embarquem! - dizia o rapaz que o ajudava chamando a freguesia. Embarcavam as mulheres aos ranchos e , depois de tudo arrumado, toca a remar. Meio do rio - Alto! - dizia ele ao rapaz. E o rapaz parava. E ele baixava-se e tirava a rolha. E o esguicho repentino de água enchia de terror o mulherio, que se punha de pé aos gritos.
- Não se mexam! Agora quem quiser chegar à Outra Banda tem de dar mais um pataco!"
Raul Brandão, "os pescadores"
06/02/08
o respeitinho não é mais bonito do que isto
Vladimir Nabokov, "Nikolai Gogol", trad. Carlos Leite, assírio & alvim
O estrangeiro
-Eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
-Os teus amigos?
-Usas uma palavra cujo sentido me é, até hoje, desconhecido.
-A tua pátria?
-Ignoro em que latitude fica.
-A beleza?
-Amá-la-ia de boa vontade, deusa e imortal.
-O ouro?
-Odeio-o como vós odiais a Deus.
-Bom, o que é que tu amas, então, extraordinário estrangeiro?
-Eu amo as nuvens...as nuvens que passam...além...além...as maravilhosas nuvens!
Charles Baudelaire, "o spleen de Paris", trad. Jorge Fazenda Lourenço, relógio d'água












