10/06/09

Uma coisa em forma de adivinha*

Casinha com 7 janelas, porta dupla e vários buraquinhos
‒ Está à procura de alguma coisa? ‒ perguntei eu.
‒ Caixas de cartão.
‒ De que tamanho?
‒ De qualquer tamanho, de todos os tamanhos ‒ respondeu ele.
‒ Vai fazer móveis com elas?
Ele abanou a cabeça a sorrir pela primeira vez.
‒ Queimá-las?
‒ Eu sou um contador de histórias ‒ disse ele.
‒ Vou ver o que temos aqui ‒ disse eu.
Voltei com uma caixa muito grande e uma boa quantidade de outras mais pequenas lá dentro.
‒ Agradeço-lhe.
‒ O que vai fazer com elas agora?
‒ Primeiro faço buracos em cada uma para entrar o ar e depois ponho uma história lá dentro. Deve saber que as histórias deixadas ao ar livre se desvanecem; as histórias precisam de viver em segredo, mas também não podem viver sem ar…

John Berger, De A para X - Cartas de Amor (Trad. Isabel Baptista), Civilização Editora.
*H., quais são as coisas, quais são elas que (tal como as histórias) precisam de viver em segredo, mas também não podem viver sem ar?


14/05/09

Allo

Meu avião em chamas meu castelo inundado de vinho do Reno
meu ghetto de íris negros minha orelha de cristal
meu rochedo descendo a falésia para esmagar o guarda da floresta
meu caracol de opala meu mosquito de ar
meu edredon de ave do paraíso minha cabeleira de escuma negra
meu túmulo estalado minha chuva de gafanhotos vermelhos
minha ilha volante minha uva turquesa
minha colisão de loucos e prudentes automóveis minha platibanda
selvagem
meu pistilo de alface projectado nos meus olhos
meu bolbo de tulipa no cérebro
minha gazela perdida num cinema de «boulevard»
minha caixinha de sol meu fruto de vulcão
meu riso de lago escondido onde vão afogar-se profetas
distraídos
minha inundação de acácias minha borboleta de cogumelo
minha cascata azul como uma espada desembainhando a primavera
meu revólver de coral apontado para mim como o olho de um
poço cintilante
frio como o espelho onde contemplas a fuga dos
pássaros-mosca do teu olhar
perdido numa exposição de branco enquadrada por múmias
amo-te


Benjamin Péret, trad. Mário Henrique Leiria

desembrulhar planícies

"Assim que a vi desejei-a
Logo, para a seduzir, estendi planícies e mais planícies.
Planícies saídas do meu olhar alongavam-se amáveis, tranquilizadoras.
As ideias de planície foram ao seu encontro e, sem o saber, ela passeava-se nelas a gosto.
Depois de bem tranquilizada, possuí-a
Feito o que, após algum repouso e quietude, retomei a minha feição natural, deixei voltar os meus lances, os meus farrapos, os meus precipícios.
Ela sentiu um grande frio e que se tinha completamente enganado a meu respeito.
Foi-se embora, de rosto desfeito e cavado, como se a tivessem roubado."

texto de Henri Michaux encontrado na introdução de "nós dois ainda" editado pela editora bonecos rebeldes.

08/05/09

Amore omnia

Olha para mim.
Sou linda?
Não.
Mas amei.

Olha para mim.
Sou nova?
Não.
Mas amei.

Olha para mim.
Estou viva?
Não.
Mas amei.


Poema escrito e dito por Gertrud, personagem do filme Gertrud de Carl Th. Dreyer (1964)

26/04/09

Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim


Adília Lopes, "Florbela Espanca Espanca", Mariposa Azual

Gostaria

Gostaria
Gostaria
De escrever grande poesia
E as pessoas
Pôr-me-iam
Muitos louros na cabeça
Mas acontece
Que não gosto
Tanto assim de literatura
E que a vida me procura
E penso de mais nas pessoas
E nem sempre me apetece
Escrever coisas à toa.


Boris Vian, "cantilenas em geleia", trad. Margarida Vale de Gato, Relógio d'Água

18/04/09

Olha. A lua e as folhas escuras.

#
- Que disseste?
- Não disse nada.
- Não disseste nada. Não. Mas voltaste ao mesmo.
- Ao mesmo? – disse Mark.
- Voltaste ao mesmo.
- São quatro horas. Estou cansado.
- O que fazes quando estás cansado, vais-te deitar?
- Exacto.
- Dormes como uma pedra.
- Claro.
- Que fazes quando acordas?
- Passo o dia a andar.
- Olhas para onde vais?
- Vou onde for.
- Gostava de te perguntar uma coisa – disse Len.
- Sem dúvida.
- Estás preparado para responder a uma pergunta?
- Não.
- Mas dizes que não fazes perguntas. Se não respondes e não perguntas, que é que fazes?
- Passo o dia a andar.
- E dormes como uma pedra.
- Exacto.
- Que fazes durante o dia quando não estás a andar?
- É essa a pergunta?
- Hã?
- Que pergunta?
- Continua.
- Não é a pergunta que te ia fazer.
- E qual é?
- É outra coisa.
- É tudo outra coisa.
- Vá, deixa-te disso.
- Está bem. Continua – disse Mark.
Len levantou-se.
- Que queres dizer com continua? – disse ele. – Fiz-te uma pergunta e tu não respondeste.
- E qual era a pergunta?
- O que fazes durante o dia quando não estás a andar?
- Descanso.
- Onde é que encontras sítio para descansar?
- Aqui e ali.
- Por mútuo consentimento?
- Invariavelmente.
- Mas não és exigente?
- Sou, sou exigente.


##
- Diz-me, cá.
- Sim?
- És capaz de correr na neve sem deixar pegadas?
- Acho que sim.
- Deves ser capaz disso, eu sei.
- Acho que conseguia.
- Tens a certeza?
- Achas que não conseguia?
- Acho que conseguias.
- Desde o princípio que o sabias.
- Soube-o desde o princípio – disse ele. – Está aí nos teus olhos.
- Sempre aí esteve?
- Sempre. E no teu corpo.
- Esteve sempre no meu corpo?
- Sim, sempre.
- No teu corpo também - disse ela.
- A sério?
- Sim.
- O teu corpo – disse ele. – Sempre esteve em todo o teu corpo.
- Sempre.
- Nunca vi as tuas pernas, acima do joelho.
- Pois não.
- Levanta a saia.
- Hum?
- Levanta a saia.
- Assim?
- Sim. Continua.
- Assim?
- Deixa-a.
- Assim?


Harold Pinter, Os anões (trad. José Lima), Dom Quixote

02/04/09

abre as asas e fala...



Fala deixa cair uma palavra
Bons-dias dormi todo o Inverno e agora desperto
Fala
Uma piroga desliza em direcção à luz
Uma palavra veloz avança a toda a vela
O dia tem forma de rio
Em suas represas brilham as plumas de teus cantos
Doçura da água na erva adormecida
Água clara vogais para beber
Vogais para adornar uma fronte uns tornozelos
Fala
Atinge o cume dum momento de júbilo
E logo abre as asas e fala sem cessar
Passa um rosto esquecido
Passas tu própria com teu andar de vento num campo de milho
A infância com suas flechas e seu ídolo e sua figueira
Desata as amarras e passa com a torre e o jardim
Passa o futuro e o passado
Horas já vividas e horas por viver
Passam relâmpagos que levam no bico pedaços de tempo ainda vivos
E escrevem teu nome nas costas nuas do espelho!
Fala
Molha os lábios na água que da pedra inesgotavelmente brota
Submerge teus brancos braços na água grávida de profecias iminentes


Octavio Paz, Antologia Poética, in Manancial (org. e trad. Luís Pignatelli), Publicações Dom Quixote

08/03/09

partir est mourir un peu

"Conforme estamos juntos ou afastados, assim te conheço de duas maneiras diferentes. Tu és duas pessoas.
Quando estás longe, continuas presente em mim. É uma presença que reveste as formas mais diversas: imagens incontáveis, passagens de livros, significações, coisas familiares, marcas na terra; mas o conjunto de tudo isso fica difuso pela realidade da tua ausência. É como se o teu ser se transformasse em lugar, os contornos do teu corpo em horizontes. Vivi portanto em ti como se vivesse num país. Tu existes em todo o lado. Nesse país, contudo, nunca te poderei encontrar face a face.
Partir est mourir un peu. Era muito novo quando ouvi esta frase pela primeira vez e logo percebi que ela exprimia uma verdade que eu já sentia. Recordo-a agora, porque a experiência de viver em ti como num país onde é impossível encontrarmo-nos face a face parece-se com a experiência de viver com a recordação dos mortos. O que eu não sabia quando era novo é que nada elimina o passado: o passado vai crescendo gradualmente à nossa volta como placenta da morte.
No país que tu és conheço os teus gestos, as entoações da tua voz, a forma de todas as partes do teu corpo. Fisicamente: não és menos real mas és sem dúvida menos livre.
O que muda quando estás presente em carne e osso, é o facto de te tornares imprevisível. Cada gesto que faças é-me desconhecido. Sigo-te. Tu ages. E no que fazes, vejo-me de novo enamorado."

John Berger, "e os nossos rostos, meu amor, fugazes como fotografias", quasi

24/02/09

El hombre imaginario

El hombre imaginario
vive en una mansión imaginaria
rodeada de árboles imaginarios
a la orilla de un río imaginario.

De los muros que son imaginarios
penden antiguos cuadros imaginarios
irreparables grietas imaginarias
que representan hechos imaginarios
ocurridos en mundos imaginarios
en lugares y tiempos imaginarios.

Todas las tardes imaginarias
sube las escaleras imaginarias
y se asoma al balcón imaginario
a mirar el paisaje imaginario
que consiste en un valle imaginario
circundado de cerros imaginarios.

Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario.

Y en las noches de luna imaginaria
sueña con la mujer imaginaria
que le brindó su amor imaginario
vuelve a sentir ese mismo dolor
ese mismo placer imaginario
y vuelve a palpitar
el corazón del hombre imaginario.

Nicanor Parra

22/02/09

Não sei nada

“Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soletrar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora “pássaro” seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei.”

Ruy Belo, "todos os poemas - vol. I", Assírio & Alvim

20/02/09

Arcos de luar

Xilofone
“Jogo infantil. Água de madeira. Princesas a fiar no jardim, raios de luar.”
Uma traição inqualificável
“O meu único inimigo, provocador e brigão, era o vento. Quase todas as noites, antes de entrar no meu quarto, deixava-o silvar alegremente abraçado a um poste da rua, ou entretido com os papéis que pastavam pela calçada. Mas, mal eu me despia, e a cadeira complacente sacudia o pó e abria os braços para me receber, o vento começava a bater violentamente contra a janela, tentando insinuar-se por alguma fenda, ou abri-la à força; a minha janela, porém, cruzava bem os seus dois rudes e únicos dedos, e mofava do vento.”
A agradável consigna de Santa Huesca
“[…] É um vulgar tiquetaque que ora saltita, ora pergunta, ora se concentra esgrimindo um livro, ora derruba um carro eléctrico que segue à cabeça da multidão. Este tiquetaque não tem a ver com as mortes nem com a história. Feitas as contas, vai ao que os outros vão.”
J.F. Aranda, Os poemas de Luis Buñuel (trad. Mário Cesariny), Assírio & Alvim

01/02/09

Quando a criança era criança

"As Asas do Desejo", Wim Wenders

Quando a criança era criança
andava com os braços a baloiçar.
Queria que o ribeiro fosse um rio,
que o rio fosse uma corrente,
e que esta poça fosse o mar.

Quando a criança era criança,
não sabia que era criança.
tudo era cheio de vida
e toda a vida era uma.

Quando a criança era criança,
não tinha opinião de nada.
Não tinha hábitos, ficava muitas vezes
sentada de pernas cruzadas,
fugia, tinha um remoinho no cabelo
e não fazia uma cara sorridente
quando tirava fotografias.

Excerto do poema do Peter Handke, dito no início do filme "As Asas do Desejo" ("Der Himmel Über Berlin", 1987), Wim Wenders.

23/01/09

O lirismo do alfabeto

Sinto-me arrebatado pelas letras,
atacam-me, cegas, de noite,
invadem-me:
cercam-me durante o dia,
tomando-me de assalto os olhos,
arrancando-me o sono e projectando-o
da sombra para a luz,
da luz para a sombra, inexoravelmente.
Guerra sem fim e sem quartel,
mortal e alegre a cada instante.
Rimbaud deu cores às vogais,
mas cada letra - todo o alfabeto -
se expande numa cor, torna visível,
até quase pode tocar-se, o seu som.
Eis aqui a armada invicta,
as guardas avançadas da palavra,
torres maiúsculas,
fortes capitães, que em batalha contínua, entrelaçados,
provocam desde há séculos todas as comoções,
ligeiras ou profundas,
do ser, do pensamento.
Pintura, poesia, caligrafia e música
- folhas, estrelas, flores - ei-las aqui, num só ramo.
O alfabeto é tudo.
Na caligrafia, exaltada, ressoa cada coisa.
Dum extremo ao outro,
percorre o mundo o lirismo do alfabeto. Escutai.
Todas as letras cantam nas antenas.

Rafael Alberti (Trad. Albano Martins)

19/01/09

Ernesto Sabato, Daniel Mordzinski (foto retirada daqui)

náufragos exaustos

Quando somos sensíveis, quando os nossos poros não estão cobertos pelas capas implacáveis, a proximidade da presença humana sacode-nos, dá-nos alento, compreendemos que é sempre o outro que nos salva. […] Muitas vezes, somos incapazes de um genuíno encontro porque só reconhecemos os outros na medida em que definem o nosso ser e o nosso modo de sentir, ou porque são propícios aos nossos projectos. Não podemos ficar num encontro porque estamos cheios de trabalho, de coisas para tratar, de ambições. E porque a magnitude da cidade nos supera. Então, o outro ser humano não nos chega, não o vemos. Está mais ao nosso alcance um desconhecido com quem falamos através do computador. Na rua, no trabalho, nos infinitos expedientes, sabemos – abstractamente – que estamos a lidar com seres humanos, mas, concretamente, tratamos os outros como se fossem servidores informáticos ou funcionais. Não vivemos esta relação de um modo afectivo, é como se tivéssemos uma capa de protecção contra os acontecimentos “desviantes” da atenção. Os outros incomodam-nos, fazem-nos perder tempo. O que deixa o homem espantosamente só, como se no meio de tantas pessoas, ou por isso mesmo, o autismo se propagasse.
Ernesto Sabato, Resistir (trad. Carlos Aboim de Brito), Dom Quixote

01/01/09

Vais à água?

#
A tua casa, sendo o local onde lês, pode dizer-nos que lugar ocupam os livros na tua vida, se são uma defesa que pões à frente para manteres afastado o mundo exterior, um sonho em que mergulhas como numa droga, ou se são pontes que lanças para o exterior, para o mundo que te interessaa tanto que queres dilatar e multiplicar as suas dimensões através dos livros.
##
Trazes o livro que estavas a ler no café e que estás impaciente por continuar, para depois poderes passar-lho, para comunicares de novo com ela através do canal aberto pelas palavras alheias, que justamente por serem pronunciadas por uma voz estranha, pela voz do silencioso ninguém feito de tinta e de espaçamentos tipográficos, podem tornar-se vossas, uma linguagem, um código entre vós, um meio de trocarem sinais e reconhecerem-se.
Italo Calvino, Se numa Noite de Inverno um Viajante (trad. José Colaço Barreiros), teorema

21/12/08

o toque da luz

"Mas da lua ela não tinha receio porque era mais lunar que solar e via de olhos bem abertos nas madrugadas tão escuras a lua sinistra no céu. Então ela se banhava toda nos raios lunares, assim como havia os que tomavam banhos de sol. E ficava profundamente límpida."

Clarice Lispector, "uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", relógio d'água