27/07/10
20/07/10
"Perto de Jerusalém vivia um camponês que tinha comprado um galo..."
– Um destes dias levanta voo – disse a mulher do camponês.
Atraíram-no, então, com milho, apanharam-no, e apesar de se debater quanto podia com asas e patas, à volta do esporão prenderam-lhe um cordel e amarraram a outra ponta ao poste que sustentava o alpendre de colmo onde o burro se abrigava.
Uma vez solto, o jovem galo afastou-se dos seres humanos com uma indignação emproada, andou a toda a extensão do cordel, deu à pata presa um esticão violento e durante um momento caiu, para se arrastar com fúria no chão de terra suja, perante o susto das miseráveis galinhas, e com uma guinada de revolta tornar a endireitar-se e a reflectir. O camponês e a mulher riram a bom rir, e o jovem galo ouviu-os. Uma premonitória obscura espécie de consciência fê-lo saber que tinha a pata presa.
Deixou de se emproar, de se eriçar e valorizar as penas. Taciturno percorria o espaço que a corda delimitava. […]
Mas era com penosa voracidade que agora engolia os alimentos; e com incomodado triunfo é que capturava as galinhas indigentes. A voz, sobretudo, perdera todo o ouro do timbre. Estava preso pela pata, e sabia-o. Corpo, alma, espírito presos por aquele fio.
No entanto, dentro de si tinha a vida implacavelmente intacta. A corda é que teria de ceder. Por isso uma manhã, pouco antes de nascer o dia despertou das sonolências, uma repentina onda de vigor permitiu-lhe um forte impulso de asas, e partiu a corda. De um salto e com um estranho guincho selvagem pôs-se na crista do muro, e daí soltou um canto sonoro e cortante. Tão sonoro que o camponês acordou.
Ao mesmo tempo, na mesma manhã e nessa mesma hora anterior ao alvorecer, um homem despertava do sono prolongado que o tinha amarrado. Acordava entorpecido e frio num buraco escavado na rocha. Todo aquele sono lhe enchera o corpo de dor, e ainda continuava cheio de dor. Não abriu os olhos, apesar de saber que estava acordado, e entorpecido, e frio, e rígido, e cheio de dor, e amarrado. Tinha no rosto ligaduras frias, e as pernas ligadas uma à outra. Só as mãos estavam livres.
Podia mexer-se, se quisesse e sabia-o. Mas, não queria. Quem quer regressar de entre os mortos?
D. H. Lawrence, O Homem Que Morreu (Trad. Aníbal Fernandes), Assírio & Alvim, 2004
05/07/10
Tempo
Agustina Bessa-Luís, "Dicionário Imperfeito", Guimarães editores
24/06/10
da casca lisa e redonda
A jovem mulher recebeu-o na mão.
Quiero é um verbo espantoso que quer dizer tudo. É querer, desejar, amar; é procurar e é até ter muita afeição. Alternativamente, e segundo o tom que se lhe dá, exprime a paixão mais imperiosa ou o mais leve capricho. É uma ordem ou uma prece, uma declaração ou uma condescendência. Por vezes, é apenas ironia.
O olhar com que André o acompanhou significava simplesmente: “Gostaria de a amar.”
Pierre Louÿs, um obscuro objecto de desejo (Trad. Ana Moura), BicodePena, 2009
14/06/10
ágape
Agustina Bessa-Luís, "Dicionário Imperfeito", Guimarães editores
27/04/10
Na lua temos tudo...
10/04/10
... como os raios de uma roda convergem no eixo
Carson McCullers, O Coração é um Caçador Solitário (trad. Marta Mendonça), Editorial Presença, 2010
21/03/10
19/03/10
28/02/10
dois pares de pés desaparecidos que se tocam
(fotograma de "Pauline à la plage" de Eric Rohmer)"Com a mão, assim que o colchão ficou de novo direito, afastou dos olhos uma mecha achatada de cabelos molhados e informou: « Vi agora mesmo um.»
- Um quê, meu amor?
- Um peixe-banana.
- Meu Deus, não me digas! - disse o rapaz. - Tinha bananas na boca?
- Tinha - disse Sybil - Seis.
O rapaz agarrou de repente um dos pés molhados de Sybil, que pendiam fora do colchão, e deu-lhe um beijo.
J. D. Salinger, "Nove Contos", trad. José Lima, Difel
09/01/10
É preciso ser-se realmente idiota para
04/01/10
descomplicar a arte
01/12/09
diz que disse que ouviu dizer e, se reviu
Converso com tudo o que leio, porque leio muito. Converso comigo própria, tenho uma vida enorme para trás, tenho autonomia, estou sempre à espera de conhecer uma pessoa interessante, o que é difícil. Se fosse numa terra grande, havia probabilidades, como dizem os físicos. Não tenho probabilidades de encontrar uma pessoa interessante, mas estou sempre à espera. E portanto entretenho-me. Também não vejo televisão.
O que é uma pessoa interessante?
É uma pessoa que descobre coisas interessantes em mim, que não se limita a dizer bom dia, boa tarde, como está o tempo. Que me faz trabalhar por dentro. Que não me faz dar respostas civilizadas, corteses. Que me dá trabalho.
Quer dizer que posso tentar dar-lhe trabalho.
Pode e deve. Vamos lá lutar.
( Margarida Cordeiro em entrevista cedida ao jornal Público.)
22/11/09
As folhas são azuis
Feliz e sem rival
E verte para mim
Cem gotas de água e sal
Aos saltos e pinotes
Percorre agora o chão
Mas pára p’ra lutar
À vista de um dragão
Batuques e tambores
Ilustram o combate sem dó
Alguém me afaga a lã
Me puxa num trenó
Me leva na manhã
Do sol-e-dó
Acordam os amores
No reino da paixão
São elfos e duendes que
Nos levam pela mão
As folhas são azuis
O sol vermelho está
A relva sua e diz que
A vida é um sofá p’ra gozar
São monstros de cordel
Histórias de encantar
No espelho de Babel
A festa não tem fim
Volteia agora o vento
E eu peço um gin
Mão Morta, O rei mimado
15/11/09
A CAMADA DE POEIRA. EXUMO.
Edward Hopper, Lighthouse and buildings, Portland Head, Cape Elizabeth, Maine, 1927 Cheguei ao mar com uma impressão de medo nos sentidos. Uma voz dizia-me:
- A vida verdadeira é uma solitária repetição de gestos.
De entre os lamaçais e os diques, um vento frio trazia ainda os lamentos das aves com o inverno. Eu, reconhecendo a vasta mancha da morte no interior das mãos, apertei-a para que não me fugisse. Muitas vezes, ao repetir maquinalmente esse gesto, o desencanto devolvia-me uma alma improvável. Não cheguei nunca a transpor os limites que a dúvida me punha. Em inquietação, eu observava as transformações do mar. Nunca acreditei nos meus poemas. Sentado, a escrevê-los, roía-me a obsessão da vida.
Há anos, vendo amontoarem-se as minhas impressões e o meu terror, resolvi debruçar-me sobre mim, limitar o vocabulário a uma região precisa, os meus raciocínios a um mecanismo doente. Dei, um dia, por que me aproximava da abstracção final. Uma persuasão terrível prendeu-me ao impulso de sobreviver. Não cedi ao nada. Escrevi:
- O desejo de durar…
Cheguei a concluir que era tarde. De madrugada, o vento deixou de soprar. Uma calmaria desceu sobre a praia e o mar. Pensei que o silêncio me libertaria. Mas as lágrimas… a loucura…
Nuno Júdice, Obra Poética (1972 - 1985), Quetzal Editores
08/11/09
Em que é que acreditas?
– Não, francamente não – respondeu a rapariga.
– E na honestidade? – perguntou Reiter.
– Uf, menos do que no amor – disse a rapariga.
– Acreditas no pôr-do-sol – continuou Reiter –, nas noites estreladas, nos amanheceres diáfanos?
– Não, não, não – respondeu a rapariga com um gesto de manifesto nojo –, não acredito em nenhuma coisa ridícula.
– Tens razão – disse Reiter. – E nos livros?
– Menos ainda – disse a rapariga –, além disso na minha casa só há livros nazis, política nazi, história nazi, economia nazi, mitologia nazi, poesia nazi, romances nazis, obras de teatro nazis.
– Não fazia ideia de que os nazis tivessem escrito tanto – comentou Reiter.
– Tu, pelo que vejo, tens ideia de muito poucas coisas, Hans – comentou a rapariga –, a não ser de me beijar.
– É verdade – disse Reiter, que estava sempre disposto a admitir a sua ignorância.
Roberto Bolaño, 2666 (Trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra), Quetzal
07/11/09
What's in a name?
‒ É um nome bastante estúpido! ‒ interrompeu Humpty Dumpty, olhando-a pela primeira vez. ‒ Mas o que é que significa?
‒ Um nome tem de significar alguma coisa? ‒ perguntou Alice, incrédula.
‒ Quando eu emprego uma palavra, ela quer dizer exactamente o que me apetecer… nem mais nem menos – retorquiu Humpty Dumpty, num tom sobranceiro.
‒ A questão é se você pode fazer com que as palavras queiram dizer tantas coisas diferentes.
‒ A questão é quem é que tem o poder … é tudo.
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