09/01/10
É preciso ser-se realmente idiota para
04/01/10
descomplicar a arte
01/12/09
diz que disse que ouviu dizer e, se reviu
Converso com tudo o que leio, porque leio muito. Converso comigo própria, tenho uma vida enorme para trás, tenho autonomia, estou sempre à espera de conhecer uma pessoa interessante, o que é difícil. Se fosse numa terra grande, havia probabilidades, como dizem os físicos. Não tenho probabilidades de encontrar uma pessoa interessante, mas estou sempre à espera. E portanto entretenho-me. Também não vejo televisão.
O que é uma pessoa interessante?
É uma pessoa que descobre coisas interessantes em mim, que não se limita a dizer bom dia, boa tarde, como está o tempo. Que me faz trabalhar por dentro. Que não me faz dar respostas civilizadas, corteses. Que me dá trabalho.
Quer dizer que posso tentar dar-lhe trabalho.
Pode e deve. Vamos lá lutar.
( Margarida Cordeiro em entrevista cedida ao jornal Público.)
22/11/09
As folhas são azuis
Feliz e sem rival
E verte para mim
Cem gotas de água e sal
Aos saltos e pinotes
Percorre agora o chão
Mas pára p’ra lutar
À vista de um dragão
Batuques e tambores
Ilustram o combate sem dó
Alguém me afaga a lã
Me puxa num trenó
Me leva na manhã
Do sol-e-dó
Acordam os amores
No reino da paixão
São elfos e duendes que
Nos levam pela mão
As folhas são azuis
O sol vermelho está
A relva sua e diz que
A vida é um sofá p’ra gozar
São monstros de cordel
Histórias de encantar
No espelho de Babel
A festa não tem fim
Volteia agora o vento
E eu peço um gin
Mão Morta, O rei mimado
15/11/09
A CAMADA DE POEIRA. EXUMO.
Edward Hopper, Lighthouse and buildings, Portland Head, Cape Elizabeth, Maine, 1927 Cheguei ao mar com uma impressão de medo nos sentidos. Uma voz dizia-me:
- A vida verdadeira é uma solitária repetição de gestos.
De entre os lamaçais e os diques, um vento frio trazia ainda os lamentos das aves com o inverno. Eu, reconhecendo a vasta mancha da morte no interior das mãos, apertei-a para que não me fugisse. Muitas vezes, ao repetir maquinalmente esse gesto, o desencanto devolvia-me uma alma improvável. Não cheguei nunca a transpor os limites que a dúvida me punha. Em inquietação, eu observava as transformações do mar. Nunca acreditei nos meus poemas. Sentado, a escrevê-los, roía-me a obsessão da vida.
Há anos, vendo amontoarem-se as minhas impressões e o meu terror, resolvi debruçar-me sobre mim, limitar o vocabulário a uma região precisa, os meus raciocínios a um mecanismo doente. Dei, um dia, por que me aproximava da abstracção final. Uma persuasão terrível prendeu-me ao impulso de sobreviver. Não cedi ao nada. Escrevi:
- O desejo de durar…
Cheguei a concluir que era tarde. De madrugada, o vento deixou de soprar. Uma calmaria desceu sobre a praia e o mar. Pensei que o silêncio me libertaria. Mas as lágrimas… a loucura…
Nuno Júdice, Obra Poética (1972 - 1985), Quetzal Editores
08/11/09
Em que é que acreditas?
– Não, francamente não – respondeu a rapariga.
– E na honestidade? – perguntou Reiter.
– Uf, menos do que no amor – disse a rapariga.
– Acreditas no pôr-do-sol – continuou Reiter –, nas noites estreladas, nos amanheceres diáfanos?
– Não, não, não – respondeu a rapariga com um gesto de manifesto nojo –, não acredito em nenhuma coisa ridícula.
– Tens razão – disse Reiter. – E nos livros?
– Menos ainda – disse a rapariga –, além disso na minha casa só há livros nazis, política nazi, história nazi, economia nazi, mitologia nazi, poesia nazi, romances nazis, obras de teatro nazis.
– Não fazia ideia de que os nazis tivessem escrito tanto – comentou Reiter.
– Tu, pelo que vejo, tens ideia de muito poucas coisas, Hans – comentou a rapariga –, a não ser de me beijar.
– É verdade – disse Reiter, que estava sempre disposto a admitir a sua ignorância.
Roberto Bolaño, 2666 (Trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra), Quetzal
07/11/09
What's in a name?
‒ É um nome bastante estúpido! ‒ interrompeu Humpty Dumpty, olhando-a pela primeira vez. ‒ Mas o que é que significa?
‒ Um nome tem de significar alguma coisa? ‒ perguntou Alice, incrédula.
‒ Quando eu emprego uma palavra, ela quer dizer exactamente o que me apetecer… nem mais nem menos – retorquiu Humpty Dumpty, num tom sobranceiro.
‒ A questão é se você pode fazer com que as palavras queiram dizer tantas coisas diferentes.
‒ A questão é quem é que tem o poder … é tudo.
##
17/10/09
Et c'est ça...
11/10/09
e eu acho que só tenho aqui comigo um cachimbo...
30/08/09
Arrebol
Um raio
Fulgura
No espaço
Esparso,
De luz;
E trêmulo
E puro
Se aviva,
S’esquiva,
Rutila,
Seduz!
(...)
Gonçalves Dias, Tempestade
11/08/09
náufragos... (efémeros como o arco-íris)
#
Olhou para o quadro. Talvez aquela tivesse sido a sua resposta – o como “tu” e “eu” e “ela” passam e desaparecem; nada permanece; tudo muda; mas não as palavras, não a pintura. Fosse como fosse, esta tela iria parar a um qualquer sótão, pensou; seria enrolada e escondida debaixo de um sofá; mas, mesmo assim, até mesmo aquele quadro era real. Talvez se pudesse dizer daquele esboço, não do verdadeiro quadro, mas sim do que este tentava ser, que “seria eterno”. Era isto que ia dizer, ou, caso as palavras soassem demasiado pomposas, mesmo para si própria, sugerir de forma muda. Foi então que, ao olhar para o quadro, se surpreendeu por não o conseguir ver. Tinha os olhos repletos de um líquido quente (a princípio não lhe ocorreu serem lágrimas) que, sem perturbar a firmeza característica dos lábios, fez que o ar se tornasse compacto e lhe começasse a rolar pelas faces. Possuía o perfeito controlo de si mesma - Oh, sim! – em todos os sentidos com excepção daquele. […] Voltou a dirigir-se a Augustus Carmichael. Que seria aquilo? Qual o seu significado? Seria natural as coisas terem mãos e agarrarem-nos?, poderia a lámina cortar?, o punho agarrar? Será que não havia segurança? Não haveria maneira de se saber de cor as voltas do mundo? Será que não havia qualquer tipo de guia ou de abrigo, sendo tudo um milagre, um saltar do ponto mais alto de uma torre para o vazio? Seria verdade que, até para os velhos, a vida fosse aquilo – algo de desconcertante, inesperado, desconhecido? Durante breves instantes, sentiu que ambos se tinham erguido, ali, no relvado, e exigido uma explicação para a brevidade da vida, para o facto de esta ser inexplicável.
##
Segundo Cam, o pai lia como se estivesse a conduzir alguma coisa, a encaminhar um rebanho tresmalhado, ou a abrir caminho ao longo de um carreiro muito estreito; por vezes, andava depressa e a direito, forçando a passagem por entre o matagal, e por vezes dava a sensação de que um ramo ficara agarrado a ele, que um espinheiro o cegara, mas não era isso que o levaria a dar-se por vencido; e lá continuava ele, a virar as páginas umas a seguir às outras. E lá continuava ela a contar a si mesma uma história a respeito de como fugira de um navio prestes a afundar-se, pois, enquanto o pai ali estivesse, não havia dúvida de que se encontrava a salvo […]
Virginia Woolf, Rumo ao Farol (Trad. Lucília Rodrigues), livros de bolso – Europa-América
05/08/09
Sinais de um qualquer código nebuloso...
‒ Animula vagula blandula.
Desta vez o latim do imperador sai mais rouco, sem perder contudo a doçura dos ll, a música a que os aa abertos, no fim, e o som escuro e anterior dos uu dão não sei que tonalidade contrastada, quase misteriosa. Porque se trata dum mistério: a perturbação que estas palavras me provocam desde que as li a primeira vez e a frequência inesperada com que as lembro ou digo involuntariamente, sobretudo naqueles instantes em que me visita, o quê?, como hei-de eu chamar a este desespero manso, sentimento de pequenez e desamparo, ternura insidiosa pelas coisas, que é talvez a máscara da autopiedade, o gato escondido com o rabo de fora?
Uma questão de estilo
Mantenho-me de lado, incapaz de fazer alguma coisa para além de observar, é uma provação, mas não digo uma palavra. De qualquer maneira, a minha natureza é de estilo silencioso. Quando criança consideravam-me respeitadora; quando jovem chamavam-me discreta. Mais tarde, pensavam que tinha a sabedoria que só a maturidade traz. Hoje em dia o silêncio é visto como algo estranho […]
Toni Morrison, LOVE (Trad. Maria João Freire de Andrade), Dom Quixote
24/07/09
um mover de lábios...
06/07/09
uma turrinha e um ço na cintura
Herman Melville, "Moby Dick", Relógio d'Água", trad. Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves
10/06/09
Uma coisa em forma de adivinha*
Casinha com 7 janelas, porta dupla e vários buraquinhos‒ Caixas de cartão.
‒ De que tamanho?
‒ De qualquer tamanho, de todos os tamanhos ‒ respondeu ele.
‒ Vai fazer móveis com elas?
Ele abanou a cabeça a sorrir pela primeira vez.
‒ Queimá-las?
‒ Eu sou um contador de histórias ‒ disse ele.
‒ Vou ver o que temos aqui ‒ disse eu.
Voltei com uma caixa muito grande e uma boa quantidade de outras mais pequenas lá dentro.
‒ Agradeço-lhe.
‒ O que vai fazer com elas agora?
‒ Primeiro faço buracos em cada uma para entrar o ar e depois ponho uma história lá dentro. Deve saber que as histórias deixadas ao ar livre se desvanecem; as histórias precisam de viver em segredo, mas também não podem viver sem ar…
John Berger, De A para X - Cartas de Amor (Trad. Isabel Baptista), Civilização Editora.
*H., quais são as coisas, quais são elas que (tal como as histórias) precisam de viver em segredo, mas também não podem viver sem ar?
14/05/09
Allo
meu ghetto de íris negros minha orelha de cristal
meu rochedo descendo a falésia para esmagar o guarda da floresta
meu caracol de opala meu mosquito de ar
meu edredon de ave do paraíso minha cabeleira de escuma negra
meu túmulo estalado minha chuva de gafanhotos vermelhos
minha ilha volante minha uva turquesa
minha colisão de loucos e prudentes automóveis minha platibanda
selvagem
meu pistilo de alface projectado nos meus olhos
meu bolbo de tulipa no cérebro
minha gazela perdida num cinema de «boulevard»
minha caixinha de sol meu fruto de vulcão
meu riso de lago escondido onde vão afogar-se profetas
distraídos
minha inundação de acácias minha borboleta de cogumelo
minha cascata azul como uma espada desembainhando a primavera
meu revólver de coral apontado para mim como o olho de um
poço cintilante
frio como o espelho onde contemplas a fuga dos
pássaros-mosca do teu olhar
perdido numa exposição de branco enquadrada por múmias
amo-te
Benjamin Péret, trad. Mário Henrique Leiria
desembrulhar planícies
Logo, para a seduzir, estendi planícies e mais planícies.
Planícies saídas do meu olhar alongavam-se amáveis, tranquilizadoras.
As ideias de planície foram ao seu encontro e, sem o saber, ela passeava-se nelas a gosto.
Depois de bem tranquilizada, possuí-a
Feito o que, após algum repouso e quietude, retomei a minha feição natural, deixei voltar os meus lances, os meus farrapos, os meus precipícios.
Ela sentiu um grande frio e que se tinha completamente enganado a meu respeito.
Foi-se embora, de rosto desfeito e cavado, como se a tivessem roubado."
texto de Henri Michaux encontrado na introdução de "nós dois ainda" editado pela editora bonecos rebeldes.
08/05/09
Amore omnia
Sou linda?
Não.
Mas amei.
Olha para mim.
Sou nova?
Não.
Mas amei.
Olha para mim.
Estou viva?
Não.
Mas amei.
Poema escrito e dito por Gertrud, personagem do filme Gertrud de Carl Th. Dreyer (1964)



