15/02/11

Elogio da Língua

"A Eufémia Troncha catava-o, fingia estalinhos insecticidas, fazia-lhe com a unha titilações, atritos suaves no casco da coroa , inventava para o nutrir e inflamar carícias e guisados, surpreendia-lhe o apetite com fricassés muito aromáticos, tinha meiguices e candonguices duma donzela que afaga pombinhos entre os seios virginais, decotava o corpete dos vestidos para lhe escaldar o sangue, fazia trejeitos lascivos de gata que se rebola escandecida nos telhados - uma cróia velha com muita experiência sublinhada. Ao príncipio, o abade agradecia com mocanquices, correspondia-lhe com exuberância de abraços, adormentava a sua dor abeberado das saudades de Felícia, e, às vezes, repulsando uma ideia funesta, murmurava: "Que a leve o diabo! que a leve o diabo!" e agarrava-se ao pescoço nédio de Eufémia como a uma forte prancha de nau descosida e escalavrada. E ela:
- Meu idolatrado . . .
E babujava-lhe de beijos húmidos a cara espaçosa."


Camilo Castelo Branco, "A Corja", Europa-América

10/10/10

"Por entre algas, búzios mortos e esqueletos de navios"

«Às vezes não te compreendo bem.»
«Sou uma ilha pequena, Paula.» Sim, uma ilha pequena, sem arquipélago, e à volta o oceano desconhecido e um nevoeiro tão denso que não deixava ver os barcos, se os havia. Mas era natural que os houvesse. Há sempre barcos em volta das ilhas. Estivera um dia numa ilha assim…
A voz de Paula ria na sua sala, no seu divã. «Todos o somos, não és original.»
«Mas eu sou aquela ilha.»
Pequena e com praias de cascalho, não muito belas, e voltadas para oriente. O sol abandonava-as a meio da tarde e então fazia frio e a água ainda há pouco morna e confortável tornava-se gélida, matéria opaca, cheia de vida, de morte e de mistérios. Só havia uma coisa a fazer, subir, subir à procura de um resto de sol. Mas do lado ocidental era o reino das gaivotas e dos rochedos a pique. Coisas só para olhar. Ruídos que eram silêncio. E acabava sempre por regressar à tenda onde estava acampada com uns amigos. Cansada. Farta. A querer ir-se embora e sem partir.
«Mas a tua vida é que é uma ilha, não tu.»
«Sim, a minha vida», concordou Jô. «Mas o que sou eu sem a minha vida, o que somos nós sem ela?»
«Bem, é tarde, vou deitar-me», disse Paula. «E o teu caso, na mesma?»


Maria Judite de Carvalho, Paisagem Sem Barcos, Publicações Europa- América, 1990

20/09/10

historinha para pêzito

"Não sabemos quando aconteceu a história da boneca. Tinha encontrado uma menina que chorava e soluçava desesperadamente, porque tinha perdido a boneca. Kafka confortou-a: "Eu sei que a tua boneca anda em viagem; acabo de receber uma carta dela." A menina estava cheia de dúvidas: "Tem-na contigo?" - "Não, deixei-a em casa, mas amanhã trago-ta."Kafka voltou logo a casa para escrever a carta. Sentou-se à secretária e começou a compô-la como se tivesse de escrever um conto, libertando o grande jogo dickensiano de calor e fantasia que sempre o habitara. No dia seguinte, foi ao parque, onde a menina o esperava. Leu-lhe a carta em voz alta. Naquelas folhas - provavelmente tão intermináveis como as escritas a Felice - a boneca explicava com gentileza que estava farta de viver sempre na mesma família: queria mudar de ares, conhecer novas cidades, outros países, deixar a menina por uns tempos, embora lhe quisesse muito bem. Prometia escrever todos os dias com a descrição minuciosa das suas viagens. Assim, por algum tempo, à luz do candeeiro a petróleo, Kafka descreveu países que nunca tinha visitado, contou aventuras dramáticas mas de final feliz, e levou a boneca à escola, onde fez novas amigas. A boneca garantia sempre à menina que gostava dela, aludindo no entanto às complicações da sua vida e a outros deveres e interesses. Passados poucos dias, a menina já tinha esquecido a perda e só a ficção lhe interessava. O jogo durou pelo menos três semanas. Kafka não sabia como acabá-lo. Pensou, voltou a pensar, procurou muito tempo, discutiu com Dora, e finalmente decidiu casar a boneca. Descreveu o jovem noivo, as bodas, os preparativos de casamento, a casa do casal. "Deves perceber", concluía a boneca, "que de futuro temos que renunciar a ver-nos".

Pietro Citati, "Kafka", Cotovia

20/08/10

das nuvens brancas, leves e minúsculas no céu azul

- Não sei, - gritei sem proferir um som, - realmente não sei. Se não vem ninguém, então não vem ninguém. Eu não fiz mal a ninguém, ninguém me fez mal a mim, mas ninguém me vai ajudar. Um punhado de ninguéns. Mas não é exactamente assim. Apenas ninguém me ajuda, de outro modo um grupo de ninguéns seria até bem-vindo; eu sem dúvida preferiria ir numa excursão com um grupo de ninguéns (o que é que acham?) às montanhas, claro, onde é que havia de ser? Olhem para esses ninguéns, empurrando-se uns aos outros, os pés separados por passos minúsculos! É desnecessário dizer que todos vestem sobrecasacas. Caminhamos tão felizes, um vento agradável assobia por entre os espaços dos nossos corpos e membros. Nas montanhas as nossas gargantas tornam-se livres. É de admirar que não comecemos a cantar.

Franz Kafka, Descrição de uma luta (Trad. Isabel Risques e Ana Sofia Nobre), Coisas de Ler, 2004

"A lua soltou-se ontem à noite"

Entre as partes ornamentais da obra, nada há de tão belo como a lua, e nada está tão acabado como ela. É pena que não tivesse ficado bem presa! Se a pudéssemos recuperar…
Mas como adivinhar onde caiu? Quem a encontrar vai, com certeza, ficar com ela. Desconfio que eu faria o mesmo. […]
Sinto uma verdadeira paixão pelas coisas belas. Dadas as circunstâncias, seria perigoso que me confiassem uma lua pertencente a outra pessoa, se essa pessoa ignorasse que a lua estava em meu poder.
De dia e com sol, eu devolveria uma lua que tivesse encontrado perdida, com medo que alguém me visse. Mas se a encontrasse de noite, inventaria desculpas para não a devolver, e ocultaria a minha descoberta ao resto do mundo.
São tão lindas e românticas as luas!
Se tivéssemos cinco ou seis, eu nunca entraria no meu quarto e passaria as noites debaixo de uma árvore a contemplá-las.
Também gosto de estrelas. Queria poder agarrar algumas para pôr no cabelo.
Mark Twain, O Diário de Adão e Eva (Trad. Ana César Rodrigues), Coisas de Ler, 2003

20/07/10

"Perto de Jerusalém vivia um camponês que tinha comprado um galo..."

O camponês saía e contemplava, vaidoso, o jovem galo. Ave insolente e vistosa, já que chegava às últimas consequências com as três galinhas depenadas. O galispo erguia a cabeça para ouvir o desafio de galos invisíveis e distantes naquele mundo desconhecido. Vozes de fantasma que misteriosamente lhe cantavam, saídas de um limbo. E respondia-lhes num desafio sonoro, impossível de intimidar.
– Um destes dias levanta voo – disse a mulher do camponês.
Atraíram-no, então, com milho, apanharam-no, e apesar de se debater quanto podia com asas e patas, à volta do esporão prenderam-lhe um cordel e amarraram a outra ponta ao poste que sustentava o alpendre de colmo onde o burro se abrigava.
Uma vez solto, o jovem galo afastou-se dos seres humanos com uma indignação emproada, andou a toda a extensão do cordel, deu à pata presa um esticão violento e durante um momento caiu, para se arrastar com fúria no chão de terra suja, perante o susto das miseráveis galinhas, e com uma guinada de revolta tornar a endireitar-se e a reflectir. O camponês e a mulher riram a bom rir, e o jovem galo ouviu-os. Uma premonitória obscura espécie de consciência fê-lo saber que tinha a pata presa.
Deixou de se emproar, de se eriçar e valorizar as penas. Taciturno percorria o espaço que a corda delimitava. […]
Mas era com penosa voracidade que agora engolia os alimentos; e com incomodado triunfo é que capturava as galinhas indigentes. A voz, sobretudo, perdera todo o ouro do timbre. Estava preso pela pata, e sabia-o. Corpo, alma, espírito presos por aquele fio.
No entanto, dentro de si tinha a vida implacavelmente intacta. A corda é que teria de ceder. Por isso uma manhã, pouco antes de nascer o dia despertou das sonolências, uma repentina onda de vigor permitiu-lhe um forte impulso de asas, e partiu a corda. De um salto e com um estranho guincho selvagem pôs-se na crista do muro, e daí soltou um canto sonoro e cortante. Tão sonoro que o camponês acordou.
Ao mesmo tempo, na mesma manhã e nessa mesma hora anterior ao alvorecer, um homem despertava do sono prolongado que o tinha amarrado. Acordava entorpecido e frio num buraco escavado na rocha. Todo aquele sono lhe enchera o corpo de dor, e ainda continuava cheio de dor. Não abriu os olhos, apesar de saber que estava acordado, e entorpecido, e frio, e rígido, e cheio de dor, e amarrado. Tinha no rosto ligaduras frias, e as pernas ligadas uma à outra. Só as mãos estavam livres.
Podia mexer-se, se quisesse e sabia-o. Mas, não queria. Quem quer regressar de entre os mortos?

D. H. Lawrence, O Homem Que Morreu (Trad. Aníbal Fernandes), Assírio & Alvim, 2004

05/07/10

Tempo

"Não sei se alguma vez escrevi para me opor ao tempo. Não sei se o tenho como adversário e o que significa. A importância que nós damos ao tempo está radicada nas nossas tendências destrutivas. Quanto mais a expansão de uma vida é reprimida, parece que o grau da sua tendência aumenta. A noção de tempo aumenta com a decomposição duma força que, inicialmente, não se dirigia à destruição mas à expansão da própria vida. Quanto mais plenamente se realiza uma vida, a função destrutiva do tempo tem menos efeito em nós. A educação das novas gerações tem que levar em conta uma cultura moderna em que o tempo seja um factor de liberdade e não de constrangimento."

Agustina Bessa-Luís, "Dicionário Imperfeito", Guimarães editores

24/06/10

da casca lisa e redonda

Sem perder tempo, pois a todo o instante a onda de carros podia prosseguir, recuou como pôde. Puxou da algibeira o último ovo, escreveu a lápis Quiero e, escolhendo uma altura em que os olhos da desconhecida se prenderam aos seus, atirou-lhe o ovo docemente, de baixo para cima, como uma rosa.
A jovem mulher recebeu-o na mão.
Quiero é um verbo espantoso que quer dizer tudo. É querer, desejar, amar; é procurar e é até ter muita afeição. Alternativamente, e segundo o tom que se lhe dá, exprime a paixão mais imperiosa ou o mais leve capricho. É uma ordem ou uma prece, uma declaração ou uma condescendência. Por vezes, é apenas ironia.
O olhar com que André o acompanhou significava simplesmente: “Gostaria de a amar.”

Pierre Louÿs, um obscuro objecto de desejo (Trad. Ana Moura), BicodePena, 2009

14/06/10

ágape

"Gosto das pessoas como elas são e dá-me imenso prazer - cada vez mais - ser agradável e gostar de quem não vale grande coisa. De outra forma sentir-me-ia muito só neste mundo."

Agustina Bessa-Luís, "Dicionário Imperfeito", Guimarães editores

27/04/10

Na lua temos tudo...

# Eu gostava da minha casa na lua, e coloquei-lhe uma lareira e um jardim no exterior (o que é que floresceria e cresceria na lua? Tenho de perguntar a Constance) e ia almoçar no meu jardim na lua. As coisas na lua eram muito brilhantes, e de cores estranhas; a minha pequena casa seria azul. (...) na lua falávamos uma língua suave, líquida e cantávamos à luz das estrelas, a olhar para o mundo seco e morto...
## Decidi que iria escolher três palavras poderosas, palavras de protecção forte, e desde que essas três palavras não fossem proferidas em voz alta nunca aconteceria nenhuma mudança. Escrevi a primeira palavra - melodia - na geleia de alperce da minha torrada com o cabo da colher, depois enfiei a torrada na boca e comi-a rapidamente. Estava um terço segura. (...)
Estava a decidir-me quanto à minha segunda palavra mágica, que achei que poderia muito bem ser Gloucester. Era forte, e achei que iria servir, embora o tio Julian pudesse meter na cabeça dizer qualquer coisa, e nenhuma palavra estava verdadeiramente a salvo quando o tio Julian estava a falar. (...)
Pensei em usar digitalis como a minha terceira palavra mágica, e por fim decidi-me por Pégaso. Tirei um copo do aparador, e disse muito claramente a palavra para o copo, depois enchi-o de água e bebi-a.
Shirley Jackson, Sempre Vivemos no Castelo (trad. Maria João Freire de Andrade), cavalo de ferro, 2010

10/04/10

... como os raios de uma roda convergem no eixo

# O tipo era mesmo estranho. As pessoas sentiam-se tentadas a fitá-lo mesmo antes de saberem que havia algo de diferente nele. O seu olhar levava a pensar que ele ouvia coisas que mais ninguém ouvia, e que sabia coisas que mais ninguém sabia. Não parecia humano.
## Continuou a balouçar-se na cadeira, para trás e para a frente. O que é que ele sabia? Nada. Para onde ia? Para lado nenhum. O que é que pretendia? Saber. O quê? O significado. Porquê? Porque o intrigava.
### Às vezes, pensava em Antonapoulos com imensa reverência, e outras vezes, com bastante orgulho, mas sempre com um amor livre de qualquer crítica ou julgamento, livre de toda a vontade. Quando sonhava, à noite, o rosto do amigo estava sempre presente, grande, sábio e meigo. E, quando estava acordado, sentia-se eternamente ligado a ele.

Carson McCullers, O Coração é um Caçador Solitário (trad. Marta Mendonça), Editorial Presença, 2010

21/03/10

Turi tata turiii...

Adolie Day, Lapin

19/03/10

28/02/10

dois pares de pés desaparecidos que se tocam

(fotograma de "Pauline à la plage" de Eric Rohmer)



"Com a mão, assim que o colchão ficou de novo direito, afastou dos olhos uma mecha achatada de cabelos molhados e informou: « Vi agora mesmo um.»
- Um quê, meu amor?
- Um peixe-banana.
- Meu Deus, não me digas! - disse o rapaz. - Tinha bananas na boca?
- Tinha - disse Sybil - Seis.
O rapaz agarrou de repente um dos pés molhados de Sybil, que pendiam fora do colchão, e deu-lhe um beijo.

J. D. Salinger, "Nove Contos", trad. José Lima, Difel

09/01/10

É preciso ser-se realmente idiota para

Agora que penso nesse assunto, a idiotice deve ser isso: o poder entusiasmar-se a toda hora com qualquer coisa de que uma pessoa goste, sem que um desenhito numa parede tenha de se ver diminuído pela memória dos frescos de Giotto em Pádua. A idiotice deve ser uma espécie de presença ou de recomeço constante: agora gosto desta pedrinha amarela, agora gosto de "L'année dernière à Marienbad", agora gosto de ti, ratita, agora gosto dessa locomotora incrível a bufar na Gare de Lyon, agora gosto desse cartaz arrancado e sujo. Agora gosto, gosto tanto, agora sou eu, um eu reincidente, idiota perfeito na sua idiotice que não sabe que é idiota e desfruta perdido no seu prazer, até que a primeira frase inteligente o devolva à consciência da sua idiotice e o faça procurar apressadamente um cigarro com as suas mãos desajeitadas, olhando para o chão, compreendendo e às vezes aceitando porque um idiota também tem de viver, claro que até que outro pato ou outro cartaz, e assim sempre.
Julio Cortázar, A volta ao dia em 80 mundos (Trad. Alberto Simões), cavalo de ferro

04/01/10

descomplicar a arte

Goya
"Nos últimos tempos, quando Goya já estava acamado, o cão vinha para o pé dele e pousava a cabeça no colchão em sinal de veneração. E ele pintava-o como podia, não muito bem. Começaram a dizer que era a fase mais genial do Goya, coitado. Porque se via só aquela cabeça que parecia dum fantasma? Porque a cama era alta, à espanhola."
Agustina Bessa-Luís, "A ronda da noite", Guimarães

01/12/09

diz que disse que ouviu dizer e, se reviu


Além da sua irmã e dos cães, com quem conversa?
Converso com tudo o que leio, porque leio muito. Converso comigo própria, tenho uma vida enorme para trás, tenho autonomia, estou sempre à espera de conhecer uma pessoa interessante, o que é difícil. Se fosse numa terra grande, havia probabilidades, como dizem os físicos. Não tenho probabilidades de encontrar uma pessoa interessante, mas estou sempre à espera. E portanto entretenho-me. Também não vejo televisão.

O que é uma pessoa interessante?
É uma pessoa que descobre coisas interessantes em mim, que não se limita a dizer bom dia, boa tarde, como está o tempo. Que me faz trabalhar por dentro. Que não me faz dar respostas civilizadas, corteses. Que me dá trabalho.

Quer dizer que posso tentar dar-lhe trabalho.
Pode e deve. Vamos lá lutar.

( Margarida Cordeiro em entrevista cedida ao jornal Público.)

22/11/09

As folhas são azuis

O rei mimado está
Feliz e sem rival
E verte para mim
Cem gotas de água e sal
Aos saltos e pinotes
Percorre agora o chão
Mas pára p’ra lutar
À vista de um dragão
Batuques e tambores
Ilustram o combate sem dó
Alguém me afaga a lã
Me puxa num trenó
Me leva na manhã
Do sol-e-dó

Acordam os amores
No reino da paixão
São elfos e duendes que
Nos levam pela mão
As folhas são azuis
O sol vermelho está
A relva sua e diz que
A vida é um sofá p’ra gozar
São monstros de cordel
Histórias de encantar
No espelho de Babel
A festa não tem fim
Volteia agora o vento
E eu peço um gin

Mão Morta, O rei mimado