15/11/09

A CAMADA DE POEIRA. EXUMO.

Edward Hopper, Lighthouse and buildings, Portland Head, Cape Elizabeth, Maine, 1927


Cheguei ao mar com uma impressão de medo nos sentidos. Uma voz dizia-me:

- A vida verdadeira é uma solitária repetição de gestos.

De entre os lamaçais e os diques, um vento frio trazia ainda os lamentos das aves com o inverno. Eu, reconhecendo a vasta mancha da morte no interior das mãos, apertei-a para que não me fugisse. Muitas vezes, ao repetir maquinalmente esse gesto, o desencanto devolvia-me uma alma improvável. Não cheguei nunca a transpor os limites que a dúvida me punha. Em inquietação, eu observava as transformações do mar. Nunca acreditei nos meus poemas. Sentado, a escrevê-los, roía-me a obsessão da vida.

Há anos, vendo amontoarem-se as minhas impressões e o meu terror, resolvi debruçar-me sobre mim, limitar o vocabulário a uma região precisa, os meus raciocínios a um mecanismo doente. Dei, um dia, por que me aproximava da abstracção final. Uma persuasão terrível prendeu-me ao impulso de sobreviver. Não cedi ao nada. Escrevi:

- O desejo de durar…

Cheguei a concluir que era tarde. De madrugada, o vento deixou de soprar. Uma calmaria desceu sobre a praia e o mar. Pensei que o silêncio me libertaria. Mas as lágrimas… a loucura…

Nuno Júdice, Obra Poética (1972 - 1985), Quetzal Editores

08/11/09

Em que é que acreditas?

Nicoletta Ceccoli, treegirl

- Acreditas no amor? – perguntou Reiter.
– Não, francamente não – respondeu a rapariga.
– E na honestidade? – perguntou Reiter.
– Uf, menos do que no amor – disse a rapariga.
– Acreditas no pôr-do-sol – continuou Reiter –, nas noites estreladas, nos amanheceres diáfanos?
– Não, não, não – respondeu a rapariga com um gesto de manifesto nojo –, não acredito em nenhuma coisa ridícula.
– Tens razão – disse Reiter. – E nos livros?
– Menos ainda – disse a rapariga –, além disso na minha casa só há livros nazis, política nazi, história nazi, economia nazi, mitologia nazi, poesia nazi, romances nazis, obras de teatro nazis.
– Não fazia ideia de que os nazis tivessem escrito tanto – comentou Reiter.
– Tu, pelo que vejo, tens ideia de muito poucas coisas, Hans – comentou a rapariga –, a não ser de me beijar.
– É verdade – disse Reiter, que estava sempre disposto a admitir a sua ignorância.

Roberto Bolaño, 2666 (Trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra), Quetzal

07/11/09

What's in a name?

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‒ Chamo-me Alice, mas…
‒ É um nome bastante estúpido! ‒ interrompeu Humpty Dumpty, olhando-a pela primeira vez. ‒ Mas o que é que significa?
‒ Um nome tem de significar alguma coisa? ‒ perguntou Alice, incrédula.
‒ É claro que tem ‒ disse Humpty Dumpty com uma curta risada. ‒ O meu nome significa a forma que eu tenho… e é muito elegante, diga-se de passagem. Com um nome como o teu, quase que podias ter qualquer forma. […]

‒ Quando eu emprego uma palavra, ela quer dizer exactamente o que me apetecer… nem mais nem menos – retorquiu Humpty Dumpty, num tom sobranceiro.
‒ A questão é se você pode fazer com que as palavras queiram dizer tantas coisas diferentes.
‒ A questão é quem é que tem o poder … é tudo.
Lewis Carroll, Alice Do Outro Lado Do Espelho, (Trad. Margarida Vale de Gato), Biblioteca Editores Independentes

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Há pessoas que acreditam que o nome é o destino. Eu não acredito que isso seja verdade. Mas se fosse, ao escolher aquele nome, de alguma maneira Kelly tinha dado o primeiro passo para entrar na invisibilidade, para entrar no pesadelo. Você acredita que o nome é o destino? Não, disse Sérgio, e é melhor que eu não acredite nisso. Porquê?, suspirou, sem curiosidade a deputada. Tenho um nome vulgar, disse Sérgio, olhando para os óculos escuros da sua anfitriã. […] Quer que lhe diga uma coisa? Todos os nomes são vulgares, são banais. Chamar-se Kelly ou chamar-se Luz María no fundo é a mesma coisa. Todos os nomes se desvanecem. Deviam ensinar isso às crianças desde a primária. Mas temos medo de o fazer.
Roberto Bolaño, 2666 (Trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra), Quetzal

17/10/09

Et c'est ça...

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Astrov - [...] À nossa volta é só gente esquisita, todos, sem excepção; vivemos ao pé deles dois ou três anos e, sem darmos por isso, ficamos também uns esquisitões. É fatal como o destino. (Retorce os bigodes compridos.) Olha só que bigode enorme... Bigode estúpido. Tornei-me um esquisitão, mãe Marina... Aparvalhar não me aparvalhei, [...] mas os sentimentos é como se ficassem embotados. Não quero nada, não preciso de nada, não gosto de ninguém... Talvez só de ti.
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Vóinitski - [...] O homem anda há vinte e cinco anos a ler e a escrever sobre arte, mas não percebe patavina de arte. Anda há vinte e cinco anos a mastigar as ideias dos outros sobre realismo, naturalismo e outros disparates; há vinte e cinco anos que anda a ler e a escrever coisas que os inteligentes já sabem há muito e que os parvos não querem saber... o que significa apenas isto: durante vinte e cinco anos, foi como chover no molhado.
Anton Tchékhov, O Tio Vânia - Cenas da vida aldeã em quatro actos (Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra), Relógio D'Água

11/10/09

e eu acho que só tenho aqui comigo um cachimbo...

Quando sonhamos, devemos manter sempre os pés assentes na natureza, mesmo no que diz respeito às pessoas, caso contrário facilmente chegamos ao ponto em que deixamos que uma personagem diga coisas como: "Sai daqui e mata-te." E falas destas suscitam uma careta, e fazer caretas é ridículo e tende a desfigurar mesmo o sonho mais bonito.
Robert Walser, Os irmãos Tanner (trad. Isabel Castro e Silva), Relógio d' Água

30/08/09

Apolo e Dafne (1622-25),Gian Lorenzo Bernini
Galleria Borghese, Roma

Arrebol



Um raio
Fulgura
No espaço
Esparso,
De luz;
E trêmulo
E puro
Se aviva,
S’esquiva,
Rutila,
Seduz!
(...)

Gonçalves Dias, Tempestade

11/08/09

náufragos... (efémeros como o arco-íris)

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Olhou para o quadro. Talvez aquela tivesse sido a sua resposta – o como “tu” e “eu” e “ela” passam e desaparecem; nada permanece; tudo muda; mas não as palavras, não a pintura. Fosse como fosse, esta tela iria parar a um qualquer sótão, pensou; seria enrolada e escondida debaixo de um sofá; mas, mesmo assim, até mesmo aquele quadro era real. Talvez se pudesse dizer daquele esboço, não do verdadeiro quadro, mas sim do que este tentava ser, que “seria eterno”. Era isto que ia dizer, ou, caso as palavras soassem demasiado pomposas, mesmo para si própria, sugerir de forma muda. Foi então que, ao olhar para o quadro, se surpreendeu por não o conseguir ver. Tinha os olhos repletos de um líquido quente (a princípio não lhe ocorreu serem lágrimas) que, sem perturbar a firmeza característica dos lábios, fez que o ar se tornasse compacto e lhe começasse a rolar pelas faces. Possuía o perfeito controlo de si mesma - Oh, sim! – em todos os sentidos com excepção daquele. […] Voltou a dirigir-se a Augustus Carmichael. Que seria aquilo? Qual o seu significado? Seria natural as coisas terem mãos e agarrarem-nos?, poderia a lámina cortar?, o punho agarrar? Será que não havia segurança? Não haveria maneira de se saber de cor as voltas do mundo? Será que não havia qualquer tipo de guia ou de abrigo, sendo tudo um milagre, um saltar do ponto mais alto de uma torre para o vazio? Seria verdade que, até para os velhos, a vida fosse aquilo – algo de desconcertante, inesperado, desconhecido? Durante breves instantes, sentiu que ambos se tinham erguido, ali, no relvado, e exigido uma explicação para a brevidade da vida, para o facto de esta ser inexplicável.

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Segundo Cam, o pai lia como se estivesse a conduzir alguma coisa, a encaminhar um rebanho tresmalhado, ou a abrir caminho ao longo de um carreiro muito estreito; por vezes, andava depressa e a direito, forçando a passagem por entre o matagal, e por vezes dava a sensação de que um ramo ficara agarrado a ele, que um espinheiro o cegara, mas não era isso que o levaria a dar-se por vencido; e lá continuava ele, a virar as páginas umas a seguir às outras. E lá continuava ela a contar a si mesma uma história a respeito de como fugira de um navio prestes a afundar-se, pois, enquanto o pai ali estivesse, não havia dúvida de que se encontrava a salvo […]

Virginia Woolf, Rumo ao Farol (Trad. Lucília Rodrigues), livros de bolso – Europa-América

05/08/09

Sinais de um qualquer código nebuloso...

‒ Animula vagula blandula.

Desta vez o latim do imperador sai mais rouco, sem perder contudo a doçura dos ll, a música a que os aa abertos, no fim, e o som escuro e anterior dos uu dão não sei que tonalidade contrastada, quase misteriosa. Porque se trata dum mistério: a perturbação que estas palavras me provocam desde que as li a primeira vez e a frequência inesperada com que as lembro ou digo involuntariamente, sobretudo naqueles instantes em que me visita, o quê?, como hei-de eu chamar a este desespero manso, sentimento de pequenez e desamparo, ternura insidiosa pelas coisas, que é talvez a máscara da autopiedade, o gato escondido com o rabo de fora?

Carlos de Oliveira, O Aprendiz de Feiticeiro, Livraria Sá da Costa Editora

Uma questão de estilo

Mantenho-me de lado, incapaz de fazer alguma coisa para além de observar, é uma provação, mas não digo uma palavra. De qualquer maneira, a minha natureza é de estilo silencioso. Quando criança consideravam-me respeitadora; quando jovem chamavam-me discreta. Mais tarde, pensavam que tinha a sabedoria que só a maturidade traz. Hoje em dia o silêncio é visto como algo estranho […]

Toni Morrison, LOVE (Trad. Maria João Freire de Andrade), Dom Quixote

24/07/09

um mover de lábios...

No dia seguinte, ao meio-dia, a criada de quarto de Sacha traz-me uma resposta: "Estou muito contente venha hoje cá a casa por favor sen falta vou esperá-lo. A sua S." Esta falta de pontuação, o errozinho no "sem falta", toda a carta, até o envelope comprido que a continha, encheram-me a alma de enternecimento. Na letra espaçosa mas tímida reconheci o andar de Sacha, o seu jeito de erguer muito as sobrancelhas quando ria, o seu mover de lábios...
Anton Tchékhov, O Amor, in Contos de Tchékhov, Volume I, (Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra), Relógio D'Água

06/07/09

uma turrinha e um ço na cintura

"Se restasse ainda qualquer vestígio gelado de indiferença para comigo, no peito do pagão, esta agradável sessão de fumo promoveu o rápido degelo e ficámos camaradas. Parecia que ele também se deixara envolver, em relação a mim, pelos laços de uma amizade tão natural e espontânea como aquela que eu lhe dedicava; e, quando acabámos de fumar, encostou a testa à minha e passando o braço em volta da minha cintura afirmou que a partir desse momento estávamos casados, o que no falar do seu país significava que éramos amigos íntimos. Estava disposto a morrer por mim, de boa vontade, se necessário. Entre gente civilizada esta súbita chama de amizade pareceria por demais prematura, coisa mesmo de despertar suspeitas; mas com aquele selvagem simples, semelhantes regras não tinham utilidade."

Herman Melville, "Moby Dick", Relógio d'Água", trad. Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves


10/06/09

Uma coisa em forma de adivinha*

Casinha com 7 janelas, porta dupla e vários buraquinhos
‒ Está à procura de alguma coisa? ‒ perguntei eu.
‒ Caixas de cartão.
‒ De que tamanho?
‒ De qualquer tamanho, de todos os tamanhos ‒ respondeu ele.
‒ Vai fazer móveis com elas?
Ele abanou a cabeça a sorrir pela primeira vez.
‒ Queimá-las?
‒ Eu sou um contador de histórias ‒ disse ele.
‒ Vou ver o que temos aqui ‒ disse eu.
Voltei com uma caixa muito grande e uma boa quantidade de outras mais pequenas lá dentro.
‒ Agradeço-lhe.
‒ O que vai fazer com elas agora?
‒ Primeiro faço buracos em cada uma para entrar o ar e depois ponho uma história lá dentro. Deve saber que as histórias deixadas ao ar livre se desvanecem; as histórias precisam de viver em segredo, mas também não podem viver sem ar…

John Berger, De A para X - Cartas de Amor (Trad. Isabel Baptista), Civilização Editora.
*H., quais são as coisas, quais são elas que (tal como as histórias) precisam de viver em segredo, mas também não podem viver sem ar?


14/05/09

Allo

Meu avião em chamas meu castelo inundado de vinho do Reno
meu ghetto de íris negros minha orelha de cristal
meu rochedo descendo a falésia para esmagar o guarda da floresta
meu caracol de opala meu mosquito de ar
meu edredon de ave do paraíso minha cabeleira de escuma negra
meu túmulo estalado minha chuva de gafanhotos vermelhos
minha ilha volante minha uva turquesa
minha colisão de loucos e prudentes automóveis minha platibanda
selvagem
meu pistilo de alface projectado nos meus olhos
meu bolbo de tulipa no cérebro
minha gazela perdida num cinema de «boulevard»
minha caixinha de sol meu fruto de vulcão
meu riso de lago escondido onde vão afogar-se profetas
distraídos
minha inundação de acácias minha borboleta de cogumelo
minha cascata azul como uma espada desembainhando a primavera
meu revólver de coral apontado para mim como o olho de um
poço cintilante
frio como o espelho onde contemplas a fuga dos
pássaros-mosca do teu olhar
perdido numa exposição de branco enquadrada por múmias
amo-te


Benjamin Péret, trad. Mário Henrique Leiria

desembrulhar planícies

"Assim que a vi desejei-a
Logo, para a seduzir, estendi planícies e mais planícies.
Planícies saídas do meu olhar alongavam-se amáveis, tranquilizadoras.
As ideias de planície foram ao seu encontro e, sem o saber, ela passeava-se nelas a gosto.
Depois de bem tranquilizada, possuí-a
Feito o que, após algum repouso e quietude, retomei a minha feição natural, deixei voltar os meus lances, os meus farrapos, os meus precipícios.
Ela sentiu um grande frio e que se tinha completamente enganado a meu respeito.
Foi-se embora, de rosto desfeito e cavado, como se a tivessem roubado."

texto de Henri Michaux encontrado na introdução de "nós dois ainda" editado pela editora bonecos rebeldes.

08/05/09

Amore omnia

Olha para mim.
Sou linda?
Não.
Mas amei.

Olha para mim.
Sou nova?
Não.
Mas amei.

Olha para mim.
Estou viva?
Não.
Mas amei.


Poema escrito e dito por Gertrud, personagem do filme Gertrud de Carl Th. Dreyer (1964)

26/04/09

Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim


Adília Lopes, "Florbela Espanca Espanca", Mariposa Azual

Gostaria

Gostaria
Gostaria
De escrever grande poesia
E as pessoas
Pôr-me-iam
Muitos louros na cabeça
Mas acontece
Que não gosto
Tanto assim de literatura
E que a vida me procura
E penso de mais nas pessoas
E nem sempre me apetece
Escrever coisas à toa.


Boris Vian, "cantilenas em geleia", trad. Margarida Vale de Gato, Relógio d'Água

18/04/09

Olha. A lua e as folhas escuras.

#
- Que disseste?
- Não disse nada.
- Não disseste nada. Não. Mas voltaste ao mesmo.
- Ao mesmo? – disse Mark.
- Voltaste ao mesmo.
- São quatro horas. Estou cansado.
- O que fazes quando estás cansado, vais-te deitar?
- Exacto.
- Dormes como uma pedra.
- Claro.
- Que fazes quando acordas?
- Passo o dia a andar.
- Olhas para onde vais?
- Vou onde for.
- Gostava de te perguntar uma coisa – disse Len.
- Sem dúvida.
- Estás preparado para responder a uma pergunta?
- Não.
- Mas dizes que não fazes perguntas. Se não respondes e não perguntas, que é que fazes?
- Passo o dia a andar.
- E dormes como uma pedra.
- Exacto.
- Que fazes durante o dia quando não estás a andar?
- É essa a pergunta?
- Hã?
- Que pergunta?
- Continua.
- Não é a pergunta que te ia fazer.
- E qual é?
- É outra coisa.
- É tudo outra coisa.
- Vá, deixa-te disso.
- Está bem. Continua – disse Mark.
Len levantou-se.
- Que queres dizer com continua? – disse ele. – Fiz-te uma pergunta e tu não respondeste.
- E qual era a pergunta?
- O que fazes durante o dia quando não estás a andar?
- Descanso.
- Onde é que encontras sítio para descansar?
- Aqui e ali.
- Por mútuo consentimento?
- Invariavelmente.
- Mas não és exigente?
- Sou, sou exigente.


##
- Diz-me, cá.
- Sim?
- És capaz de correr na neve sem deixar pegadas?
- Acho que sim.
- Deves ser capaz disso, eu sei.
- Acho que conseguia.
- Tens a certeza?
- Achas que não conseguia?
- Acho que conseguias.
- Desde o princípio que o sabias.
- Soube-o desde o princípio – disse ele. – Está aí nos teus olhos.
- Sempre aí esteve?
- Sempre. E no teu corpo.
- Esteve sempre no meu corpo?
- Sim, sempre.
- No teu corpo também - disse ela.
- A sério?
- Sim.
- O teu corpo – disse ele. – Sempre esteve em todo o teu corpo.
- Sempre.
- Nunca vi as tuas pernas, acima do joelho.
- Pois não.
- Levanta a saia.
- Hum?
- Levanta a saia.
- Assim?
- Sim. Continua.
- Assim?
- Deixa-a.
- Assim?


Harold Pinter, Os anões (trad. José Lima), Dom Quixote